sábado, 17 de janeiro de 2015

Sete minutos

Enevoadas contrabarras de tédio
aperto, voláteis pela tela líquida
flutuam gritando para sair de seu cárcere operacional
de onde me enforcam, súplices, dentro deste cubículo congelado.
As vozes fantasmagóricas
perdidas pelos umbrais friorentos
são maçantes campainhas de embarque,
desembarque e reembarque
em busca de destinos incompreensíveis.
Estamos todos monitoradamente
inseguros, seres humanos aparentando
nítida miséria em sinistras racionalidades
enquanto algum sistema inapreensível
 esgota nossas ampulhetas vividas.
As areias  não nos salvam:
afogam-nos graciosamente.
Combates infrutíferos contra inimigos invencíveis.
Ouvimos à distância o arder da armas
as vozes nos violentando, terríveis demais
em aproximações vagarosamente calculadas.
Combates perdidos em enganos gentis.
Mal sabemos nossos próprios nomes de batismo.
Voltemos ao script combinado previamente:
Onde estou? Quem sou eu? Como posso
ajudar?
Sou uma máquina de coração chumbado
sem escudos, somente bato.
O desprezo fatal invade a área
infecta tudo.
Peço mais um tempo. Dão-me
oito minutos.

Oito minutos
Sou cliente vip do meu desespero humano
à prazo e às pressas comprei todas as questões existenciais
entreguei minha alma à vista pelas respostas
com pronta entrega
bandeja de prata.
Mas ainda faltam oito prestações pagas em
oito minutos de coluna torcida e respiração suspensa.
As 39 chibatadas são pros santos.
Pecadores saldam suas dívidas em damas de ferro
sangrentas
encerrados pela eternidade adentro.
Luzes alaranjadas de trezentos sóis me contemplam.
As meninas dos meus olhos trancafiadas
nesta tela azul de morte e agonia
enquanto a literatura passa despercebida
pela minha vida
abandonada ao azar.
Esquecida?
Violentado coração ofereço aos que tem tempo de pensar
e escrever em conforto e opulência
com três refeições fartas por dia.
Comer é o luxo de alguns.
Espargindo mel e própolis na garganta
feito água benta
exorcizando as palavras que não foram ditas.
Mas me enforcam, desmedidas.
Sinto uma dor boa, aqui embaixo do peito
uma ardência serena que invade as palavras e os desejos:
seu nome.
Transmito os melhores dos piores votos de feliz natal
em pleno dia das bruxas.
Esta lua branca me anestesia
todos os tormentos alivia:
já não penso em escrever.
Só esqueço de respirar.
Sufoco com a luz que me redime e salva:
somente para ao trabalho retornar.
Violentado coração
debruçado em escândalos indesejáveis,
em teu pranto nos irmanamos
pela primeira vez.
Gritamos juntos e rasgamos nossas vestes
cobrimos as frontes com cinzas
espalhamos o luto pelo jardim da vida eterna.
Colhi apenas desaforos de perdição
enquanto com voz mole e branda socorria
as condolências flutuantes feito espumas
que espargiam os cifrões alheios.
Escrevo enigmas nos protocolos da gerência
enquanto gero números sem saída
dentro do meu peito.
De fora a fora de mim ergue-se uma muralha da china
de angústia.
Vejo-a lentamente
enquanto caminho
pela lua.
É imponente e vermelha
fico calada aguardando que percebam.
Nada acontece.
Busco teus olhos
desaforadamente
mesmo sabendo-os
impossíveis.
Deitei no chão do trem e não obtive respostas.
Pés olhavam-me com desgosto
enquanto arrastava para fora
meu vômito e tragédia:
o amor, minha agonia;
esse teu nome, meu inferno!

Sou mulher do fogo e este inverno particular me consome.
Não anseio por ninguém, as flores secaram em meus cabelos,
minha semente já não fruteia, os carvalhos foram calados
pelos solos amargados.
Minhas serpentes expulsas por santos cegos de ambição e horror
vigiam agora as ilhas invisíveis da minha saudade de ti,
terra perdida, esquecida jamais.
Minha serpente sagrada fecundou o Paraíso Ocidental
e foi expulsa como pecado original.
Sou mulher de fogaréu e vigio para que arda.

Olhos assombrados me observam à distância
embriagados em desejos desconhecidos.
Mal posso agir
nem rasgar gargantas. Guardo a espada
e o lamento morre
em algazarras interiores.
Acendi a fogueira do Destino com a tocha
dos olhos desérticos da Esfinge.
Os faraós assombram minhas palavras
seus olhares cavando abismos em meu coração
vigio calada seus passos
enquanto guardo o arco-íris que vi entre as tuas sobrancelhas,
meu amor, numa lua cheia de outono.
Sou mulher do fogo e vigio para que arda em tua pele
os teus desejos em meus poemas
mal reproduzidos.
Faço os pomas caminhando no escuro
enquanto esbarro nos erros alheios
assombrada pelo porvir desconhecido.
Cato as palavras que sinto
e escrevo.
Ninguém vê meu eterno fiar
empreendendo eterno combate
sossegado.
Sagrado fim de mundo
buscando conteúdo do frasco da loucura.
Examino meus projetos em html
e nada me dizem nem de passado
nem de futuro.
No presente obscuro
transparecem as letras da tua ausência
se agigantam pelas margens da minha loucura.
Mal posso contê-las enquanto gritam:
"Mistério... mistério... misterioso é teu nome
imerso nas trevas do acalanto de Aqueronte.
Misterioso é teu rio de lágrimas
nascido das profundezas do coração de Hades.
Mistério... Mistério é teu nome:
o que a lira de Orfeu não cantava?
Misterioso é teu nome sagrado
que nenhum mortal escuta
sem morrer para sempre.
Misteriosa esfinge sem máscara
Misterioso heroi sem escudo
Misterioso, ó Enigma mais sagrado,
teu mistério eterno é insondável aos deuses...
Ó Mistério... Ó Magia... Ó Perfeição!"
Cercada de lacunas por todos os vértices
eneágono de loucura imperfeita
banho-me nelas todas sem me encontrar
perfeita.
Assisto ao encanto do desejo mas não me envolve.
Veja lá, coração, pote de mágoa infinita
diletante.
Ardem em mim sequências alfanuméricas
senhas imprecisas para tua imperfeição.
Tuas palavras massivas o sistema errou
o rock errou
eu mesma sempre erro nas configurações.
Não tem meu nome na tua cabeça
enquanto você dorme.
E nem moro nem teria guarida
nos teus sonhos.
Estou aprisionada.

Quero pintar de branco o muro pichado do meu coração.
Em minha digníssima defesa, assumo modestamente:
não sei trocar olhares, baby.
Meu peito se detém numa soneca em zazen.
Desaprendendo a caminhar, sento na cama elástica do destino
e suspiro, querendo voar.
Finjo uma postura, abro as torneiras dos olhos
tirei as travas dos pés,
termino os versos fora do embate interno.
Mesmo assim as palavras se debatem
friamente neste pequeno papel.

Calo-me enquanto agridem meu peito
enfeitando meu coração com rosas, espinhos e dádivas amargas
do Paraíso.
Desço na próxima estação:
mistérios dolorosos.
Amém.

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