segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Enterro

"Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera."

Falamos idiomas diferentes.
Somos lado esquerdo do teu cérebro;
lado direito do meu.
Eterno combate:
eu sou o barulho.
Você,     silêncio.

Não tenho medo de encará-lo no espelho dos meus versos
enterrando-os nessa paixão absurda.
Eu não tenho medo de enterrá-lo
profundamente no meu orgulho vadio.
Minhas unhas roídas, minhas olheiras insones, minhas pernas fracas
ligo os pontos da ferida:
meu coração em desespero.
Escondo lágrimas na sombra
da vela apagada.
Mil desejos queimando sob o sol.
Meu espírito absoluto nos céus flutua
buscando asas no infinito.
Eu sou o barulho do tambor da aurora.
Você é      o silêncio dos pássaros no inverno.

Eu me encho de clichês em amargura.
de você... eu não sei nada.
Os castelos distantes
mais longínquos se tornam.
Mentira.
Teu castelo é uma estrada infinita na qual caminhas silencioso entre as desditas e cervejas
e fumaças e poeiras.

Eu sou uma deusa enevoada
em mentiras e apegos.
Dentro da torre mais alta
do desejo, a enjaulada fera
definha enquanto berra.
Meu castigo, enfiar-me
em sete véus de escuridão
guardar enfim o coração
e, a você, dizer adeus.

"Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!"
Você, coração de Janus, caminha devagar sem agonia.
O coração definitivamente em alegria infantil eterna nada percebe além do soar plangente da canção do próprio umbigo. Seu violino canta ao luar ardente de suas noites solitárias entre as gentes, as festivas fogueiras nas areias, as músicas nos campos, a enorme alegria do teu povo brilhante.
Eu vi teu olho na noite fria.
Eu vi teus sete céus de agonia?
Não, amado meu.
Hoje sei: vi apenas o que desejara.
E meus sonhos me conduzem sempre
à centelha ilusória da Queda.
Teus beijos eram, na escuridão, algemas
e tu eras serpente engatinhando pelo meu corpo
sempre apertando e soltando
uma tortura que custava caro
uma loucura que paguei o preço
e dei minha carne ao teu desejo
e entreguei minha saudade ao inferno
e meu coração impuro foi teu mel.
A mim, sobrou apenas o fogo eterno.

E a lua, mensageira das ilusões
que me trouxera a ti,
foi embora no primeiro amanhecer
em que abri os olhos,
na manhã seguinte ao despejo
obscuro de mim
do interior da tua caverna.
Desiludida, caminhei perdida
pela estrada pedregosa da própria vida,
tentando reconstruir os pedaços da existência renegada,
o cristal do coração... Catei as fagulhas pelo caminho
e tento colar seus pedaços
e tento enganar o Tempo
e tento divisar o futuro
e tento seguir caminhando
sem ti:

"Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera."
Nunca tive companhia que me guiasse
nem diabo que me carregasse.
Importante criar uma vida interior
quando uma exterior nunca existiu.
Tenho meus silêncios que você nunca ouviu.
Tenho mil palavras que você nunca leu.
Tenho beijos guardados que nunca te dei.
Meus mistérios guardados em sete baús:
nunca te abri nenhum.
Acha que me conhece?

Quem é o homem capaz de saber
o nome da serpente
que assobiava, agarrada,
à Árvore da Vida?

A névoa invade meu corpo neste instante
em que me debato na consciência inoportuna
da sua vinda no amanhecer inexato...
Perco a poesia no meio de tanta coisa.
"Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja."
Perdi meus temas e minhas tintas e meus pincéis.
Queimei os quadros e começo a contar histórias.

Finjo prosa em ritmo de poema.
Mas não me resgato nessas lacunas. Nem nos parágrafos perdidos.
Num corredor branco, me assombro com as luzes do teto.
Rastejei mil anos nas veredas de lágrimas amargas
e do teu peito colhi minhas desgraças.
Farei uma odisseia mentirosa
do nosso amor naufrágio.
Amor que eu planejei
e você de iceberg em punho afundou. Teve o direito.
Amor não é plano de vida.

Eu bebi demais, baby. Eu te bebi demais.
Vomitei lagoa azul pra todo lado
naquele banheiro abafado da existência.
Baby, baby... você não precisa saber de mim.

Sim, esta é uma das tentativas inúteis
de extirpar você de mim, Zahir.
E, sim, não está dando certo.
Cada vez que cultivo uma palavra
e nela ponho a semente do teu nome
e banho ela inteira na água macia do meu desejo
e cuido que o sol do coração não a devore
e... deixo a em paz... depois...
Ela só cresce mais e se enreda e incrusta
e enraíza.

Silêncio de turbilhão. Meu silêncio é um furacão.
Três meses trancada no centro do seu crânio vazado.
Em silêncio, vomitando teu nome. Cada letra
como guilhotina no meu corpo.
Meu silêncio de sangue.
Cada letra feroz devorando meus órgãos.
Meu silêncio é faca afiada no céu.
Cada som voraz engolindo minha bile seca.
Meu silêncio é trovoada.
E o balde compassivo segurando meu abraço
em paz no meio da minha agonia profunda.
Meu silêncio é o som de um vômito.
Vomitava teu nome e o amor.
Teu nome... e o amor.
Teu nome é meu silêncio de bile.
Teu nome é o amor em silêncio inoportuno.

Amor... teu nome reverbera como pérolas
dentro do meu estômago ácido
e vazio em silêncio.

Carrego um coração inválido
e versos nulos em silêncio.
Cada letra tua plantada no meu vazio
em silêncio.
Cada poema obscurecido no meu vazio
em silêncio.

De cada lembrança, só desejo a névoa absoluta
em silêncio.
De cada toque, a ausência suave
do silêncio.
De cada abraço, a frieza instantânea
em silêncio.
De cada beijo, a terna indiferença
do silêncio.

Neste poema agora
canto meu réquiem em silêncio.
Você me diz calado
que eu falo demais.

E eu respondo?
Em silêncio.

"Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"

Os vermes sagrados roam as trevas desse amor enterrado
no silêncio profundo da rocha.
E levem para bem longe esse desejo tão ardente.
Que eu esteja livre de ti a partir de agora...
Em nome da lua minguante e do sol poente.

Optchá, faça eu estes versos
como quem borda uma mortalha
no silêncio profundo da rocha.

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