domingo, 8 de fevereiro de 2015

Maria Madalena

Lavei teus pés, ó amado
com óleos sagrados
a mirra bendita...
E meus cabelos usei para secá-los...
Sacra seara: teus pés em meus fios
e o encanto jamais se desfez,
enquanto eu sacralizava tuas pegadas,
teu coração feriu o meu, mortalmente
de amor...
E eu, o que poderia fazer?
Apaixonada, só podia te seguir
preparar o chão por onde pisarias
com as flores mornas do coração flechado.
Ergui muralhas que te protegessem
da guerra, da ira, da loucura...
Por amor, levantei as espadas que trazia
e fui Maria da Defesa.
Segui teu calvário dentro de mim
e fui Maria das Dores.
Ajoelhei-me, abraçada ao Cordeiro,
e esmagada sob os pés do Criador
porque sou filha de Eva, herdeira da serpente,
gritei: Ó Gólgota, ó Jardim dos pesares!
E o céu tornou-se, ao meio dia,
como uma eterna madrugada.
Deus havia fechado seus olhos às minhas súplicas.
A noite escura enchendo a lua de amargo fel,
o coração pálido pesando em feitio de mármore enregelado,
o corpo tremendo em suores de pressentimentos,
minhas mãos cansadas de implorar ao Pai.
Ó Calvário sagrado e maldito! Ó cruz bendita
que nos liberta do Mal! Ó cruz amaldiçoada
que me tirou o Amor de todas minhas vidas...
Resignada e destruída, ferida na carne:
eu estava crucificada, Senhor, minh'alma
em chagas abertas...
Dois corações no infinito:
Teus olhos me encontraram em mil sonhos.
Eu estava crucificada, Senhor.
E eu era minha cruz: fui Maria Madalena.
Hoje sou estrela conduzindo os mortais
ao mundo dos sonhares.
Sou estrela-irmã do Sono
redimida,
mas eternamente
Madalena.

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