sábado, 21 de fevereiro de 2015

Queimadura

meu olho brilha de lágrima queimada
o azul é fogo selvagem gritando de amor
arrancando minha laringe da estrutura
azul boquiaberto de fruição da madrugada
perdi meus versos na passagem das horas
enquanto o vento salgado balança teus cachos tímidos
abandonados pelo chão, cortados, indefinidos.
corro pela areia para me livrar da tua presença
assentada no perene trono do meu peito.
tudo acorda sob confusão arredia
seus pés longe do meu destino
minha estrada ancorada no teu sublime porto
mantenho a marcha em círculos
a roda da fortuna me devorando
minhas ciências afundando à beira-mar
razões indo embora, se perdendo no profundo azul
não me lamento... não me envergonho...
desfaço-me de teorias como quem entrega os pontos
sem perder a batalha.
deitar no chão e abraçar o silêncio.
no jirau da tua bastilha
eu perdi minha arcaica salvação da lavoura.
enforquei meus desejos
na árvore que brotou do teu cílio
sagrado.
as rosas emudecem diante de ti.
E de mim.
já meu coração canta samba em partido alto
e, mesmo que inverno fosse,
eu roubaria flores de estufa
macias e cálidas para minhas canções...
Seu silêncio me atormenta
bate fulgurando em cada canto do meu peito
E ecoa livre pelo abismo instaurado
na tua ausência.
Silêncio, silêncio... é teu nome.
Como mergulhar no teu silencioso lago
sem saber o que encontrarei?
Esse meu coração é corajoso pra gritar,
mas covarde pra se embrenhar num desconhecido alheio.
Deitar no chão encantada pelo silêncio
e quieta sentir teus passos no escuro turbilhão
das próprias incertezas.
Não, não quero mais
esse obscuro objeto de desejo...
carrego fúria e melancolia
feito duas conquistas mortíferas.
Mais do mesmo.
E minhas pausas longas não refletem meu desespero.
Paro para respirar.
Engano o coração.
Volto ao abismo, encarando anticristos.
Na prisão, encontro o sublime acima dos muros
e o céu azul liberta meu poema.
Teimo em continuar escrevendo
a primeira pessoa nunca me liberta
presa suave nas entrelinhas a terceira
se livra das observações que faço.
Mil desculpas esfarrapadas pelo tempo
agonizam em fremente abandono.
Enfiei a cabeça no absurdo
e vivo tremendo de loucura.
Teu nome? Já esqueci.
Sussurro no embate:
minha salvação é a loucura.

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