quinta-feira, 19 de março de 2015

Ascendente

Cancelei o tormento. Bati a porta na cara de todos os pesadelos. Vi o sol nascer dentro dos meus olhos de onça pintada. Recuo mas só pra dar o bote mais forte. Deitei no galho mais alto e encontrei a serpente. Sibilou-me beijos e segredos. A árvore silenciosa aguardava a lua. Sabe lá o que estou fazendo? Sabe lá o nome que tem? Sabe se tem poder, se tem magia, se tem doçura, se tem encanto? Os versos selvagens rosnam na cara da madrugada enquanto corro atrás do gamo. Donzela? Nunca quis. Carrego o fardo de caçadora mas sem ser Diana. Não me escondo em cavernas. Quero o beijo de todas as estrelas dos sete céus. Agarro o gamo, corto-lhe a garganta macia. Sou caçadora sem arco. Furo com faca sem mágoa. Acaricio com unhas de vidro, arranco a pele sedenta de desejo. A lua chora com o gamo. Não sinto nada.

O silêncio me alucina com suas essências sanguinárias. Ouço mil vezes minhas voz perdida. Sussurro seu nome no vendaval enquanto a chuvarada não vem. O tempo move meus cabelos pelos céus e as nuvens invadem minha nudez sagrada. Outono, vem! Outono, vem! As folhas com as quais me cobri eram todas coloridas em seus frescores. Algumas secas me partiam o coração.  Girei de braços abertos até que o mundo caísse aos meus pés. Mas fui eu mesma que me derrubei. Teus olhos me diziam que o infinito é solúvel em águas passadas. E que os moinhos todos eram gigantes de aço. E que ninguém estava esperando no fim do deserto. E que tudo sempre acaba. E que... e que... e que eu não deveria ter grandes esperanças... O amor era uma das flores do mal... O delírio rude do escritor que está morrendo... A carpideira... A dor... A mortalha... Edgar... Tudo.

Brinco, sorrindo enquanto o sol já vem vindo. Bem devagar, espreguiço os versos... Faço prosa, sou teimosa. Destruo qualquer coisa que esteja no caminho, chuto pedras, tropeço em tapetes, quebro copos, parto pratos.

Estou aqui nestas palavras. Quatro flores secando no varal. A piscina com água escura. Os vidros embaçados. Seu abraço no crepúsculo do domingo.
Aguardo o encontro com teus olhos enquanto pauso o filme na melhor cena. Deito na cama.
Mil sonhos me contemplam no galpão vazio e escuro.
Nenhum pesadelo a mais.
Teus olhos brilham.
Sou teu sol.

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