terça-feira, 24 de março de 2015

Cinturão de Órion

Quero ser a poeta secreta
fora dos murmúrios das ruas
a que caminha, sem lucidez, pelas alturas
dos campos esquecidos do passado.
Quero a letra indecifrável da eternidade
quando o sol chegar
e seu canto for  mudo.
Quero a árvore sã
e a raiz podre do eucalipto infértil.
Quero os versos frondosos
suaves como brisa
do sussurro de Vésper.
Quero a beleza do céu amanhecendo
dentro dos meus olhos
naquele momento sagrado
em que encontro os teus
à noite.
Quero teus braços feito abrigo
cálido
para as solidões que me assaltam o peito
taquicardíaco.
Quero a luz da lua me desvanecendo na madrugada
imatura dama da noite eu tenho o perfume perpétuo
o figo da Turquia folclórica que brinca na minha pele
meritiense de planta nativa
meus cabelos de índia barroca
e os olhos de açaí do rio Nilo
meus braços de jacaré de papo amarelo
carinhos de boto cor-de-rosa
e mil desejos de Iara abandonada naquele rio
antigo
sem bandeirantes babacas caçadores.
Eu e a lua. E você. Sem ser Martim
nem eu Iracema.
Não sei porque seu nome não fugiu de mim
no inverno passado.
Talvez eu tenha me agarrado a ele
como a um travesseiro fofinho
em formato de bichinho.
Falo com as coisas do mundo
mas continuo sem respostas.
Onde está você?
Morando no lado escuro da lua
a manca branca que se estica nos céus.
Eu continuo aqui
escrevendo.
que é só o que sei fazer.
juntar essas palavras
tão repetidas
e falar absurdos.
E quando durmo tudo é sonho
e não há lamento.
O sono me embala o pensamento.
Os sonhos me acalentam.
Os pesadelos feneceram.
Ontem eu troquei a lâmpada do quarto.
E hoje esqueci que tinha trocado
passei o dia no escuro.
Mas foi bom.
Via você inerte na sombra
respirando fundo e mexendo na cortina azul marinho.
Mandei um beijo e você guardou
no guarda-roupa obscuro
da minha imaginação.
Ganhei sapatos novos que acendem
os velhos calos adormecidos.
Prefiro o tênis velho e a meia furada.
Julgo-me importante demais.
E agora sei o que sinto:
um comprimido a mais na boca.
Ansiedades inexpressivas.
Ansiolíticos calados
emudecem meus versos táteis.
E eu caminho para tua porta
sem emoção.
Vou embora como já tinha ido.
A mente vagando no primeiro ônibus do dia
o motorista me dando troco com sono
e eu parando no ponto errado para
andar mais um pouco.
Volto pra casa
tiro a roupa do varal
estendo meu coração na chuva torrencial
pra ninguém ver as lágrimas do céu.
Ontem eu esqueci do vazio
e me enchi de estrelas.
Hoje eu lavei o lado de dentro
amanhã jogo água no lado de fora.
Não canto mais. Só lamento
o silêncio no corredor intranquilo.
Vejo as aulas passarem sem emoção.
E não quero mais ser Álvaro de Campos.
Ser poeta nem é nada demais. Ser gente
nem é nada de menos.
Só quero uma fruição da madrugada
um abraço e brigadeiro de panela.
O simples é o mais complicado.
Quero ser alguém sem ser eu.
E desde ontem a cidade mudou.
Mas não digo nada aos teus olhos.
Só observo a rua lá embaixo
as pessoas passando
e  a janela tremendo de frio.
Largo o corpo na poltrona.
Largo o copo no chão.
Largo o poema no vazio.
Crio nocivos versos na ascensão da minha alma.
Desde ontem
a cidade mudou.

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