terça-feira, 24 de março de 2015

Dança da morte

Escrevo para a porta aberta à frente, o corredor escuro revelando meus monstros em suas paredes. Prefiro subir, encontrar no teto da casa algum vento, algum ar que me penetre o peito e me livre do medo. Da morte.
O telhado que a chuva molhou parece um manto escuro e a piscina lá embaixo parece um lençol azul estendido no chão. Olho para a vizinhança hostil enquanto o cão da casa à frente ressona. Não sei voar.
Escrevo para a porta fechada do céu. Nos meus olhos rugem tempestades de lágrimas e os anjos estão cegos para a beleza. Os demônios mudos não sussurram mais seus sonetos. Os pássaros esconderam-se dentro das árvores. Não vejo mais nada humano. Sob minha pele mil agulhas fincadas. E nos pés dois cravos deitaram-se no meu sangue. Transbordo petrificada numa cadeira de pregos feita trono e baluarte.
Escrevo para a estrada coberta de névoa. Uma coruja entregou num envelope roxo todos os meu sonhos para a morte. E eu não sei porque fui abandonada. Caminhei esquecida, solitária dentro do frio e da chuva. Já sei morrer. Aprendi a correr para aquecer os ossos. A água penetrava em tudo de mim. Afoguei meu tormento no colo gelado da noite. O vento traz o sussurro do desespero. A estrada vazia, palmo a palmo medida pelos meus pés, meu corpo medindo os litros de chuva, as roupas pesadas, pés retorcendo-se em cãibras. Nunca a estrada acaba. A obscuridade dos meus pensamentos. A fé afogada nos lamentos. Os deuses esquecidos. Os anjos não querem molhar suas asas para me salvar da escuridão. O mundo chovia inteiro, me carregando pelos gritos do asfalto. Não sei onde o céu estava nem se a lua existia. O sol, eu tinha certeza, nunca voltaria. A manhã tinha me abandonado. Eu deveria ter agradecido por ver e sentir o sol em todos os momentos do passado. Não penso em amores. Não penso em amigos. Não penso em afagar minha loucura. Não penso em doenças. Não penso.
Escrevo para a porta fechada do inferno. Não abri seus portais. Escrevo apenas essas frases curtas, perdidas em tantos pontos. Dou voltas e voltas. Ando em círculos de texto anacrônico. Letras dispersas. Julgo minha razão. Desligo as luzes do meu teatro interior e removo o ponto. Paro o monólogo ensaiado todo dia. Tiro a máscara contemplativa da Mnemósine absurda. Guardo a bagagem na saída. Tiro as mãos dos bolsos e quero aprender a andar outra vez. Voltar não é opção. Só tenho o seguir em frente. Só tenho o tempo à frente. Encontrar a morte com suavidade. Encontrar a porta. Entrar por ela. Seguir sem saber pra onde. Andar pela loucura desconhecida sem dizer nada. Viver a paixão. Ser feliz aos bocadinhos. A vida é frágil. Eu nunca soube viver.
Mas não escrevo para a Morte. Escrevo para a Vida. Mesmo sem saber porque estou vivendo. Ou mesmo se estou vivendo. A Dúvida entra no meu quarto enrolada em lençóis brancos de hospital, ligada a tubos de plástico e segura o soro no alto. Ela carrega meu corpo pálido e esquálido no ombro feito um fardo, uma cruz de carne e sangue. Eu me rendi para a desgraça. Abri os braços enquanto ela cravava suas garras e arrancava meu coração, espargindo meu sangue na noite escura. Minha loucura derramada na estrada. Minha cabeça em chamas rolando pelo asfalto molhado, escorregando pelas ruas. Minha alma procurando enlouquecida o caminho de casa. Meu coração alagado de dor. Julguei a vida como dolorosa e vil. Mas a Morte sorrindo enquanto me encarava, me tatuando com sua sombria tinta e marcando à fogo na minha pele: "sobrevivente". E tivesse me dado um tempo apenas, mais um dia, quem poderia saber? Mais um segundo? Mais uma semana? Quem pode saber? Quem diria?
O encontro é inevitável, a noite é infindavelmente escura mas continuo andando.

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