quinta-feira, 12 de março de 2015

Galpões de sonho

as belas letras invadiram meus sonhos
pintando tudo de rubro com suas línguas mortas
palavras mornas amaldiçoadas pelos hereges
os parágrafos de pasárgada engolidos pelos tigres
a mesa na qual escrevo meus versos
é uma mala pronta pra partida
e cheia de mentiras entre as roupas
e intrincada de cordas entre os livros
e nula de sentidos
é uma mala vazia esperando ideias
meu cérebro é uma viagem perdida
para o mediterrâneo sul do pensamento
a partida infinita pro azul do equador
nulidades esquecidas
não sou nem o verme morador
do banheiro feminino do terceiro andar
aquele perto da biblioteca que ninguém vai
só quando falta papel higiêncio nos outros
retalhos da minha alma no oitavo andar
sapatos antigos escondidos numa gaveta
uma poesia toda feita de "se eu..."
ou mil motivos para odiar você
mil clichês circuncidados
o inferno tem o carisma nazista
cenas largadas na secadora da lavanderia
nada que eu dissesse, te convenceria
frases em julgamentos perenes no teu espírito
uma rede de insônia a me embalar
uma lágrima de jaci escorrendo pelo meu umbigo
o cordão quebrado entre eu e a terra
passaporte pro céu, carimbado
firma reconhecida.
apago os desenhos das paredes
do corpo
os símbolos sagrados tomam forma
na mente
e as mãos coloridas vão pintando
letras clássicas
sobre meu fim.
quatro da manhã varrendo minha memória.
cinco da manhã lavando a casa
jogando água na cozinha
e desinfetante no banheiro.
Fazendo espuma na sala,
revirando os sofás com o aspirador.
mil vassouras correndo pelas escadas
e a roupa dançando na lavadora.
mil cordas estendidas
mil varais de peças limpas
todos os pensamentos brilhando de anil
ao sol
balançando-se ao vento da tarde.

fim de tarde, deito no chão limpo do quarto
e lamento a despedida do sol.
faço poesia no fechar dos olhos
com os versos de travesseiro.

girando o mundo, quem impedirá?
roda vento, roda e gira.
o pensamento vai e vem.
a roupa seca me espera
pacientemente, retirá-la.

Nos meus sonhos, a roupa nunca seca.
E o sol nunca se põe.
Uma tarde eterna me abençoa...
é sempre ângelus,
é sempre café com leite,
é sempre infância brilhante,
é sempre... antes das seis.

Galpões de sonho são meus pensamentos.
De vez em quando, jogo água em tudo
e alvejante.
Tudo está brilhando.
Até quando?

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