quinta-feira, 5 de março de 2015

Nota de corte

Escrevo porque a noite se aproxima vagamente.
Não-linear em horizontes roxos, o sol adormeceu impassível.
Escrevo porque tenho mil perguntas dúbias.
Perdidas questões flutuando nas fronteiras da loucura.
Escrevo porque a noite escura é assustadora:
povoada de imagens, símbolos, divindades, letras que cismo em reter na memória eternamente falha.
Fragmentos herméticos. Leis antiquíssimas. Talentos roubados.
A água da vida remoendo-se num poço silencioso.

Tempestades solares são braços longos que me envolvem: cordas, cobras, veias, correntes amarram, apertam, sufocam.
Mil terremotos e deslizo em superfícies de prédios pulverizados:
espraiada em destruição, sou uma lagoa rasa.
Teu espelho, teu reflexo cadenciado.
Diga meu nome no adormecer da tarde e o sol volta a nascer.
A calunga grande canta réquiens nos atabaques de areia.

Queimam em mim desenhos de nuvens e rastros de cobras.
Acendo velas na floresta e peço licença pra entrar.
Luzes que vem do céu me lembram da cor dos teus olhos.
Vi três luas roxas, certa vez, no castanho-escuro do teus olhos.
Era manhã e vi teus olhos na lua branca.
Não eram eternas as três estrelas que vi em volta daquela lua amarela?
Tenho medo. Incerta, caminho e todo o azul do céu me abandona.
Deixo o fumo de rolo na árvore frondosa:
vem, Ossaim, vem buscar teu presente. Dá licença
de eu entrar?

Escrevo porque a noite se aproxima
as árvores me enlaçam com grandes galhos feito garras
Escrevo porque os ventos me abraçam
me cubro de folhas e escondo meu cheiro
Escrevo porque lágrimas me beijam os olhos, o rosto inteiro
invadem minha boca
como línguas salgadas molhadas
e só me trazem mais tristeza líquida.
Escrevo porque é terrível o fim do mundo.

Escrevo porque reina o absurdo
e meus pés, outra vez, pisam na beira do abismo
para colher as três violetas outonais do teu coração.

Queria, inutilmente, espalhar as pétalas
no entorno sacramental
das noites infinitas e frias
em que me enrolo no teu corpo

em que tudo é tempo e nada importa.

Conecto-me ao cenário do fim
acomodando a torrente gelada de morfina
na veia principal
da poesia.

Calo as estrelas em trevas aparentes
e a lua se cala diante de mim:
que posso fazer diante do fim?
que posso fazer diante do fim?

O que posso fazer diante de ti, Aokigahara?
O que posso fazer
senão desistir?

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