terça-feira, 31 de março de 2015

Trovoada

Sou poeta
eternamente insatisfeita.
Humana, de gozo violento,
gemido vil e superficial lamento.

Útero vazio, aguardando endométrio.
Coração oco, gritando próprio eco.
Nada sinto na pele nem no espírito.

Tua boca é macia flor
envenenada docemente
de encanto e fúria.
Teu corpo, falso bálsamo
para minha loucura.

Vibrações diferentes.
Estou em outra estrada:
Não desejo mais esbarrar na tua.

Tuas faces são todas
estranhas aos meus olhos.
Teu gosto todo
indiferente aos meus lábios.
Tua saliva amargando
minha língua.
Teu suor, ácido corroendo
minha pele.
Teus olhos fechados
teu coração trancado.

És apenas mais um
na multidão.
E eu de peito entediado
nesta tapeçaria de versos insossos
escondo-me sem dormir
náufraga de todos os meus sonhos
na sala vazia da tua casa
luz acesa, mesa posta
cadeiras vazias.

Teu coração colecionador
de prazeres
fúteis.
Da tua espada
só resta o veneno do sangue alheio.
Tuas obscenidades não me conquistam.
Teus vagidos me constrangem.
Teu corpo esculpido em mármore
é abismo perfeito no qual estou à beira
e me afasto.

Não me rendo aos seus domínios
já sei o que esperar de ti, meu sétimo selo.

Teu perfume é o da morte.
Teu olho, de armadilha.

Conheço teus trejeitos de cabo a rabo.
Não quero nada.

Já tenho a mim.

Sou poeta
eternamente insatisfeita
porém
toda coração e pressentimento,
intuo e me afasto
da tua presença nefasta.

Adeus.

Mariana Belize



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