terça-feira, 10 de março de 2015

Vácuo

Entre os mil que há à minha direita
e os dez mil à minha esquerda
existe o meio-fio em que me escondo
súbita e estranha, equilibrando desesperos.
julgo não saber de onde vem o lamento
e mesmo essa doença cruel que me escangalha
e estes remédios que insistem em me curar
não sabem nada da minha agonia os doutores da lei
carregando serpentes nos ombros
e pobres agarrados aos pés,
receitando rituais de purificação
apoiados em enormes sepulcros caiados.
eu julgo não saber de onde vem todo banzo
que me acusa em cada espelho e parede e corredor escuro.
eu julgo não saber nem mesmo onde se esconde
todo delírio que a dor de amar você me traz.
queimei a língua no veneno alheio aos arcanjos
naquele falso beijo cheio de discrição e formosura.
encantada, entreguei minha língua ao amor vil
e o tormento de Siroco invadiu minha garganta e me possuiu.
cortada em quarenta silêncios, vaguei pelo deserto
a buscar meus pedaços em vagarosa viagem.
eu era a busca, o buscado e o buscador.
a tristeza infinita do que nada encontrou no infinito de si mesmo
e andou em círculos por todo o universo.
e olhou a face de deus numa pétala de flor
e esmagou-a cheio de ódio depois rezou silenciosamente
assistindo a um pôr-do-sol.
o fim do meio em que o início se enredou
e a noite que escondeu o sol durante o dia.
cavei em todo desértico paraíso buscando olhos de gente
que me bastasse
perdi meu talento nas miragens enlouquecidas
de teus olhos
e nos oásis não me encontrei
contigo
apenas afaguei a recôndita obsessão
nutrindo a dor nas lágrimas dos escorpiões.
encontrando os chacais, arremessei meu ódio
em combates infrutíferos.
encontrando os guardiões, ajoelhei minhas vaidades alegres
e nada tive a ofertar.
a ponta da espada brilhava feito a lua
ao encontro da marca impura de minha cabeça.
não encontro outro ritmo
volto ao antigo.
as pirâmides reluziam atrás dos cavaleiros
parecendo sonhos de criança.
nada dizíamos. o silêncio era
grave como o deserto inteiro.
os homens tinham olhos escuros
e tatuagens. as vestes negras reluziam
sob a lua minguante.
as pirâmides sorriram enquanto o sangue quente pintou
um escorpião escarlate na areia.
e do meu olho esquerdo nasceu o sol
iluminando o meio-dia.

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