terça-feira, 26 de maio de 2015

Bomba relógio

À beira do abismo, sinto muito.
À beira de mim, afundo.
Limítrofe ao divino, limitada ao demoníaco.
O mundo é dividido em duas partes iguais.
Tudo é vazio e nada é cheio
ao mesmo tempo.
Estou na corda bamba equilibrando o mundo
na cabeça.

não sei o que sinto
nem sei se sou capaz de sentir
então eu faço força pra sentir ao máximo
e tudo dói.
O corpo reclama baixinho
pra não me irritar.
A cabeça dói devagarinho
pra não me enervar.
As palavras se esvaziam assim que dito
ou escrevo
E perco o sentimento assim que tento
dizê-lo
Precisaria calar tudo para guardar a dor
E sentir
Mas se nada sinto então é o fingir que me dói?

Meu médico está doente
Meu antigo amor está doente
Eu estou doente
O mundo está doente
Mamãe está doente
A cura está doente
Deus está doente

As montanhas guardam a cura de todos os males.
Mas quem suportaria
a solidão da busca?
Quem daria a vida,
traria a cura e a dividiria igualmente?
Eu não.
Guardaria as respostas todas
para mim.
Enquanto os segredos assombrados
gritariam pela eternidade afora
embora eu não saiba quais são.
Guardanapos usados
da tua boca
Eu guardo.
E tenho ciúmes de todos
que assistem ao espetáculo do teu olhar
E não se dão conta.

Você é meu cometa Halley.
Mas daqui a 75
76 anos eu não te veria
me escondendo no limite
à borda do abismo
eu afundaria no princípio obscuro
de mim
suavemente aos berros alheios
eu me calaria
deslizando sem pressa.

Conto todos os meus segredos
nos dois segundos de silêncio
entre o olhar do médico e o meu.
Ele é uma folha em branco
na qual deposito todos os meus dilemas.
E eu não quero saber se ele existe.
Mas é estranhamente frio
e seu tom de voz é fluido como um ar condicionado.

Conto todos os meus dias minúsculos
no meio do barulho sumidouro de lágrimas
indo pelo ralo da pia da cozinha
na qual ela se esconde de mim.

Conto todos os meus pequenos momentos
e você não ouve minha voz
porque ela não entra aí.
Estou longe de qualquer coisa
mas dentro do meu amor.
Seu casulo, seu casulo.
Seu desespero do mundo.
E eu queria apenas uma medida
de presença.

Escrevo tudo que você não lê.
Triste mundo, triste quarto
vazio de abraços.
Vejo você deslizar por aí
suave e vil com um sorriso
carregando muitas respostas
e nenhuma pergunta.
Vejo seu sangue por aí
manchando os muros
e cato tuas lágrimas para fazer móbiles brilhantes
que deixem meu quarto
mais interessante.
Acordo cheia de loucuras
e você transtornado de certezas inabaláveis.
Esconde as dores na ironia
E no cinismo se esquece por inteiro
se escondendo como num casaco felpudo.
Eu só sei dizer uma verdade.
Eu só sei dizer meias-verdades.
Eu só sei dizer minhas mentiras sagradas.

Tenho silêncios mas não uso.
Somente pausas para respirar
que gritam suas cores escaldantes
enquanto suporto as madrugadas escandalizadas.
As dores reprimidas e os comprimidos coloridos
não suportam meu barulho
quando estou quieta.
Tenho mil escolhas e não me lamento.
Olhos vazios me observam em indecisos embates.
Belos narizes que não se satisfazem com o formol dos cadáveres.
O cheiro da morte já não é tão ruim.
Nem mesmo o perfume da vida
das flores.

À bordo do navio
na beira do abismo
na linha de frente
no meio do fim do mundo.

Insaciável sede de gritar
em combates infrutíferos.
Desejos em potes de vinte gramas.
Amores em fotografias de mil pixels.
Amizades apenas em mensagens inbox.
Fora isso, não sei do que somos capazes.

Capatazes sombrios da culpa
inoculamos venenos nos olhos cegos
da Justiça quieta
parecendo muda.

Na cegueira absurda do Tempo
escondo minhas obscenidades.
Finjo assistir seus debates
sem tédio
mas amo suas imagens descoloridas
em silêncio
pipocando na televisão adormecida.

Meu amor,
nós nos desfizemos de nossas harpas
e de nossas vozes.
Meu amor,
nós nos livramos de corações
e trocamos por prêmios incalculáveis.
Meu amor,
a ausência do teu olhar é fel
na língua sedenta da Lua.
Meu amor abominando minhas noites envidraçadas.
Meu amor,
te odeio tanto que te cortaria em pedaços interessantes
e te mandaria pelo correio aos seus melhores amigos. São tantos.
Meu amor,
eu poderia entrar ali agora
e gritar com você por horas.
Meu amor,
vamos ficar aqui fora no frio.
Esfriemos nosso ódio
Esfriemos nosso ódio
fervente como lava do meu vulcão pessoal
desaguando no desejo estranho
de uma bomba relógio perfeita
que te perseguisse noite adentro
e te destruísse na manhã seguinte.

Todos lutando por si mesmos
e por seus motivos sagrados.
E eu com preguiça de mim mesma.

Caí na solidão como numa cama dura
e gelada.
Sem grandes esperanças
estamos todos a sós
conosco mesmos.
E eu aqui, bobamente, desejando bombas e amores.
Inexistentes vida toda e amor pra tanto.

Todos os segredos que guardo no esquecimento.
Todas as ideias geniais que me assaltaram em algum momento.
Todas as grandes realizações
invisíveis.
Porque inválidas.

20 de maio de 2015
com edições do dia 21 de maio de 2015..

2 comentários:

Luares Poéticos disse...

Difícil ter palavras para expressar oque sinto quando te leio.
Teus escritos falam muito comigo. Te admiro muito.

Mariana Figueiredo disse...

Obrigada pela presença aqui no Galpões... e pelo coment.
Seja sempre bem vindo.