sexta-feira, 3 de julho de 2015

Ruas de sonho

"Como a proa engolida pela vaga
Como a moça dos olhos de ressaca
De pé, me faço valente e resisto
Em sonhos, tu me mostras: fui vencido."

Um cigarro fumado distraidamente
fluindo desprendimentos.
Venho aqui como numa despedida
desse clima caloroso
e sutilmente hostil.
Quase charmosos, os olhos curiosos
dos loucos.
Os sorrisos tremem nos cantos das bocas
amargas
enquanto eles dançam
aos gritos.
Não suportam meus versos
insalubres.
Vejo pedaços de pesadelos
no meio da rua flutuando
alguns necessitados
desassistidos...
terrores mendigos.

Defumo o ar de impotência 
com nicotina
e certa ironia na repulsa
dos sorrisos frementes
nas bocas alheias
corações abandonados às leituras mortas.

Observo discretamente?
Não faz meu tipo.
Fico um instante meio perdida entre fumaças e vespeiros.
Não tenho desculpas.
E acho que escrevi tudo à mão esquerda
dos versos.
Poemas na terceira margem,
pemba não é segunda pele:
é couraça mágica da floresta.
Morada de Oxalá no coração.
Buda nas pernas fortes.
Krshna no coração viajante.
Jesus peregrino da alma.

Penso melhor no meio de tanto barulho
enquanto espanto as pessoas
sutilmente
fazendo pose de artista anos 20
atriz blasé garota de Ipanema
perdida nas encruzas de Nova Iguaçu.

Defumo os ares com nicotinas imaginárias
meus desejos intragáveis
amores soluçantes solitários impacientes
orgulhosos demais pra seguir na estrada
comigo de guia, samaritana e guardiã.
Penso melhor no entrecortado cruzamento
do barulho das mentes com o silêncio das almas.

Mutante mulher mutatis mundus
Faço a esquiva
egípcio olhar fechado
pro búdico fim.
Solene vela acesa
na catedral da sarça ardente:
"Ouça. O mórbido silêncio aqui jaz"

Mariana Belize

Os trechos entre aspas são do poeta Anderson Câmara no seu livro Fragmentos.

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