sábado, 26 de setembro de 2015

Arcanjos sulfúricos

De dentro das mansardas da covardia
Do profundo azul da melancolia
Dos meandros podres da hipocrisia
Do meio dos lençóis do medo
Sai, desesperado, um lamento
medroso:
"Piedade, Senhor, pelo meu coração
cheio de amor, pleno de esperança
e sem ninguém para esperar nem amar.
Piedade, Senhor, por este corpo
um furacão apaixonado
imenso e suave
sem ninguém para arder sob divino fogaréu.
Piedade, Senhor, por esta alma
aguerrida à fé, à honra, à vida
e tantas coisas que ninguém acredita mais.
Piedade, Senhor, por esta fertilidade
sem terra para cultivar.
Piedade, Senhor, por esta sede voraz
que me consome dias e noites sem fim
Sem água ou vinho que a assente.
Piedade, Senhor, por estes versos
furiosamente escritos,
impacientemente lidos,
desgraçadamente lúcidos
Sem ter que os pague.
Piedade, Senhor, pelas tuas cores
que eu uso desmesuradamente
a pintar mundos imaginários
sem ter quem os veja verdadeiramente
com olhos infantis
e coração samaritano.
Piedade, Senhor, por estas lágrimas
assustadoras que escorrem irracionais
mas que transcendem minhas lógicas
infundadas e quebram meu instinto.
Piedade, Senhor, por estes poemas
devoradores
que me engolem sem mastigar,
que me pisam sem esmagar,
que me sangram sem esgotar,
que me batem sem cessar,
que me acordam... me beliscam... me torturam
nas madrugadas infinitas.
Piedade, Senhor, por esta covardia
de implorar misericórdia
nesta noite tão bela
de névoa densa e fria.
Piedade, Senhor, por eu enxergar
as belas estrelas
e nada fazer.
Piedade, Senhor, por implorar piedade
apenas por mim. E pela vida, minha vida
covarde, hipócrita, vil.
Piedade, Senhor, por eu desprezar os Céus
desejando ardentemente a Terra inteira
sem ser pobre de espírito.
Piedade, Senhor, por querer tudo
e ser nada.
Piedade, Senhor, pela escrita
megalomaníaca destes versos
sem nem mesmo saber amarrar os sapatos
devidamente.
Piedade, Senhor, por estar deitada
apenas assistindo o caminho à frente
e nem querer levantar.
Piedade, Senhor, pelo incômodo infantil
que me causa o silêncio do homem que tanto amo.
Piedade, Senhor, por vomitar tanto amor
e não engolir desaforo.
Piedade, Senhor, por não rezar
mas fazer estes versos inúteis.
Piedade, Senhor, por pedir piedade a Ti.
Piedade, Senhor, por falar a Ti
mesmo sabendo profundamente
que a verdadeira oração
é o Divino Silêncio.
Mariana Belize
24-06-15
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, dai-nos a Paz!

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