segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Carta I

Álvaro,

engana-se quem pensa que "para todo sapato velho há um pé descalço" ou que "toda panela tem sua tampa". Existem sim, estes seres especiais, magnânimos, extremamente afortunados, que encontram suas devidas companhias e, com elas, vivem seus dias. Cada um, como diria um ex-amigo, sobrevivendo para sempre na memória do outro.
Existem também os que se sentem maravilhosamente autossuficientes e estão muito bem a sós consigo mesmos.
Porém, Álvaro, não é de nenhum desses dois casos, nem dos outros milhões que existem, dos quais quero falar.
Minha carta se destina a você, como sempre. Habitante eterno das minhas entrelinhas amargas, com este nome falso, eu já nem sei quem você é ou a que rosto real seu nome se destina. Se é que se destina a alguém. Ou qualquer coisa como gente nesse mundo. Ou... continuemos.
Meu texto destina-se aos entediados. Dentro da solidão, sentem a inutilidade e vegetam sobre as próprias lágrimas tragadas, uma a uma pelo planeta. Caminhantes vazios, sem a quem dar as mãos, sem terra para cobrir os ossos, sem teto sobre as cabeças malfadadas. Estes seres sem família, sem grandes amigos, sem mestres queridos. Solitários.
"... que sentem até do tédio
o tédio mesmo..."
Acho que foi isso que escreveram, não é?
Enfim, estes seres, na verdade, não existem. Passam por todos, incógnitos. Escondem-se sob arbustos raríssimos, sob sorrisos treinados, óculos de sol sem sol, chapéus de longas abas. Os olhos inchados, as olheiras maltratadas, sempre tem suas desculpas esfarrapadas para cobrirem-nas, cremes estranhos para tapá-las... coisas do tipo.
Às multidões descoloridas não se transparecem, nem chamam atenção. Seguem o fluxo, batendo cartão, apertando mãos, desejando "Bom dia.", "Boa tarde."...
Vestem-se. Comem. Bebem. Dormem.
Mentira, alguns não fazem nada disso. Alguns fazem tudo isso. É complicado saber seus hábitos completos.
As esperanças sonhadas são logo esquecidas ao despertar. No primeiro segundo dos olhos abertos, morrem na memória todos os belos sonhos, sublimes desejos, fluidos poemas.
Resta a eles um engasgo amargo na garganta. Pigarreiam e levantam. Pigarreiam levemente por todo o dia.
Já não reclamam, alguns. E, se arriscam a escrever algo, logo escondem. Ou jogam fora aos montes. Não se dão ao trabalho de queimá-los porque sabem que a fumaça seria sinistra. E mal cobriria as vergonhas.
Já basta de dramas no mundo. Dão a ele seus silêncios. Montanhas de silêncios. Sem nada dentro. As plantas de casa crescem frondosas, sabemos como: regadas às lágrimas. Desespero.
Aceitam polidamente toda palavra. Profundamente calados. Inclusive de si mesmos.
Alguns parem as lágrimas noites adentro, uma após outra. Todas prematuras.
Outros já nem se lembram do que é chorar.
Outros nem lembram...
Nem lembram do dia anterior porque todos são um dia só. O mesmo. Repetido indefinivelmente. Infinitamente. Aos círculos.
As alegrias alheias não os incomodam. Não invejam ninguém. As tristezas não os comovem. Não invejam-nas também.
Objetivos todos demarcados. Todos os soluços contados. As roupas limpas. Cabelos impecáveis.
E, dentro de si, o forte grito do eco vago:
o nada que espreita e ambiciona...
Ser.

Então, termino esta carta por aqui. Estou cansado. Não sei se escreverei outra vez enquanto você estiver na Índia. Ou na China. Nem sei mais onde você está.
Já não conto minhas rotinas porque sei que estas nunca te interessaram. Então conto as rotinas dos outros do mundo para ver se te levam a alguma curiosidade que te faça escrever-me.
Ou não sei, quem sabe vendo os tipos interessantes que nascem, não, que surgem por dentre os esgotos daqui, você decida voltar para observá-los mais e melhor... Assim teria eu também a chance de revê-lo daqui do meu esgoto particular.

Do seu eterno,
Sá-Carneiro

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