segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Adorno

você já não mora com meus vestidos
porque já não tenho guarda roupa
e tudo está revirado
roupas espalhadas por todo canto
e você não tem mais lugar certo também
nem pra perfumar minhas calcinhas
nem pra figurar entre os outros livros

passei um tempão esquecida de você
e límpida, suave, tranquila
dormindo feliz, sonhando com artistas fúteis
depois acordando com mil cafés
e comendo, e dormindo e comendo
e vendo tv.

mas aí você entrou pela porta
pedindo seus papeis
com todo direito de pedi-los
com todo direito de pedi-los
já que eu não estava usando
e eu fui revê-los antes de
entregar
você voltou pro umbral
eu desliguei a tv
e voltei a ler tudo de novo

Valèry e Degas
caindo em mim feito plumas esquecidas
e a arte e a sociedade e a responsabilidade
caindo em mim
dessa vez como um peso tirânico.

Essas notas de literatura
ainda vão me matar, Adorno...
Mas não te devolvo um papel sequer!

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