terça-feira, 6 de outubro de 2015

De mudança

Somos os últimos objetos da casa:
eu, o estrado da cama velha, livros rasgados e roupas sujas.
Somos os últimos objetos da casa
que alguém lembraria de levar no caminhão.
Somos os últimos objetos desta vida
neste lugar
e guardaremos as lembranças boas,
as memórias ruins, sonhos e pesadelos,
paraísos e infernos de cada um
que aqui pisou.
Somos o resto da roupa suja no cesto
as que ficam lá no fundo e que são esquecidas
porque o sabão acabou
e ninguém liga
porque ninguém usa.
E são tão inúteis que ninguém jogou fora.
Somos os últimos objetos da casa
e assombraremos nossos donos
quando, enojados, eles nos colocarem em caixas
de papelão
e nos esconderem no quarto da bagunça.
Somos os últimos objetos da casa:
eu, a mesa bamba, o sapato furado, a escova velha de dentes.
Contaremos azulejos do banheiro,
contaremos a poeira do teto,
contaremos as baratas que passeiam,
contaremos as histórias e os segredos.
Somos os últimos objetos da casa:
eu, minha vida, minha cabeça, minha voz
e talvez, quando nos despejarem
na rua
possamos morrer todos de mãos dadas
ao relento
e, sem esperanças de resgate, nós
nem ao menos, choraremos.
Pois objetos não lacrimejam
não imploram, não fogem, não gritam.
Somos os últimos objetos
não mais da casa,
nem mesmo os últimos,
nem mesmo os únicos abandonados.
eu, à solidão, à friagem, à loucura.
Somos objetos como todos os outros
que são queimados pelos mendigos
nas horas mortas
à beira dos cemitérios.

Somos o sal pisado pelo homem porque é insosso.
Somos a vileza exata do verso de dentro do analfabeto.
Somos a calha entupida do universo.
Somos o lamento mudo do horizonte.
Somos os que foram guiados por cegos.
Somos os que nem o abismo desejou encarar.

Somos os últimos objetos da casa:
eu, livros, útero e sangue.
Esquecida do próprio nome,
canto à lua um réquiem
antes de enfrentar o último ônibus
de frente.

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