quinta-feira, 29 de outubro de 2015

milagre d'água

ói que o olho ressecou
a vista embaçou
e a mão tremeu
quando o sol vingou
sobre o pasto
e eu ardendo de febre
estendida
vida inútil dessas de planta capim
estendida feito lençol machado
de banha que não sai
nem com anil
eu ardendo de sertão
meu ventre se alastrando
por entre as veredas
perdi meu queiroz
e quinze, trinta nos
entreguei à voragem
as rosas que nasceram
me prometeram
a vida outra vez

o olho desembaçado
se perde na fresta
quando vi água
pela primeira vez
carregando água na cabeça
subindo e descendo o morro
do rio
água barrenta

mas quando choveu
deus que alegria
quando choveu
a vó olhou pra gente
juntinho, chorando, rezando
gradecendo
e disse:

"vai pra chuva seus demonho
porveita que já acaba"

foi o dia mais feliz da minha vida.
eu tinha sete anos.

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