sábado, 3 de outubro de 2015

Passado

estive poeta
durante muito tempo. hoje já não estou mais. baixou a bola do verso e não sinto mais vontade de escrever. talvez seja a salvação mesmo, ficar calada, sufocada e morrer com a frieza do ar entalado na garganta, vendo tudo, sabendo tudo, sem mover palha. estive poeta enquanto pude. desisto disso. não sou nada. sempre li isso. sempre ouvi isso dentro da cabeça. os espíritos sempre falaram. me acostumei aos conselhos que nunca segui. a intuição também que nunca segui. tomei porrada à toa. fui cínica com todos que pude e os que viram a verdade nunca disseram nem uma vírgula do que observaram. desisto. fecho os olhos e o escuro não responde. o silêncio não me atinge. o barulho afasta meus sonhos. meus tímpanos furam-se aos poucos. a língua se bifurca, os braços se esticam, unem-se ao corpo. tudo se tornando longilíneo, meu amor se tornando o ar. a barriga na terra, o umbigo no mundo. o chão frio na pele fria. o sol aquecendo minha cama. o ar sentido pela língua. derreto a pele antiga e saio do corpo hominídeo. esqueço as ideias, apagam-se os desejos, tudo é um eterno deslizar. antes humana presa, hoje... serpente livre.

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