domingo, 1 de novembro de 2015

Do centro do meu útero

carrego sangue e vida em espirais
que se renovam a cada vez que a lua
é plena de sono e ying
eu mesma: dona de mim, toda
eu, ainda estranha, equilibrando plexos
chakras complexos
dentro do centro nos meus ovários
policísticos
o câncer vem de onde eu menos espero
a frustração de não entender as mutações
que o i-ching tenta explicar
desesexplicando tudo

carrego este órgão feito apêndice
ancestral
o coração nem fala mais
o cérebro, um silêncio só
mas quando me entedio
parto o plano em dois
e viajo até matar alguém
limpo o sangue, arrumo a casa
e sento na cadeira do computador

carrego este órgão que tem épocas próprias
ditando suas leis que desconheço
porque não me entretém
às vezes, sangra demais
e me irrita
às vezes de menos e me irrito também
dói te carregar porque você contrai
cheio de razões próprias
mas o que você grita
como posso saber
se não paro pra te ouvir?

eu mesma, dona do meu corpo
eu mesma, uma estranha que me habita
eu mesma, alguém dentro do ventre:
um Outro que me acompanha agora
um acidente de percurso
em busca do além dos limites
do prazer
uma satisfação sensorial
que tapa um dos buracos
da peneira da existência.
Alma? Que alma?

meu espelho embaçou ao amanhecer
enquanto bato a cabeça no estrado da cama
saio correndo lá pra fora
e encontro sol fazendo aurora.

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