terça-feira, 3 de novembro de 2015

Mozart

toda madrugada traz a espera
uma espera platônica e amaldiçoada
de uma palavra
um "sim"
que nunca virá

todas as brumas e conselhos
que me envolveram
trouxeram a sujeição da minha escrita
sob sete véus de loucura

é o Desejo que fica a gritar
por toda a vida
é o Desejo que abriu os portais
da espera profana
é o Desejo, porta-voz
do meu desespero

que me abandona
assim que o sol nasce
que me rasga
quando a lua vem
que me espanca
quando tua música toca
naquela estrela
Rainha da Aurora

Mozart moderno,
não sabes quem és
não sabes quem sou
onde estou
que pedras já me rolaram sobre a cabeça
que mares já fugiram dos meus pés
que homens violentos me arrebataram a alegria
tal qual ladrões roubaram os tapetes da família...

Sigo pela praia silenciosa:
é a Morte a pairar sobre o forte
é o Adeus a sussurrar nos ouvidos dos anjos
é a própria Fé
a sujeitar-se diante da Melancolia.

Quem sou eu? Quem és tu?
Dois pássaros sem ninho,
sem poleiro...
Dois pássaros
mudos.