sábado, 7 de novembro de 2015

Nanã

                                                                                  para Joana Carneiro, minha vó

não tenho medo da velhice,
a senhora já sabia,
que dentro de mim já existe um relógio quebrado
a senhora me dizia
que o Tempo me daria olhos opacos e ossos quebradiços
e rugas escondidas na alma
que Oxalá já tinha me invocado com
um olho esquerdo astuto
comportamentos estranhos
puxando de uma perna
e resmungos
a senhora me dizia
que eu já era velha
e que não teria medo da velhice
a resposta é essa:
estarei confortável num corpo idoso
com o Tempo nas costas
feito Ogum carregando Oxalá
vou ninar minha Velhice
cantar para meus cabelos brancos
encontrar minha dentadura
no meio dos livros
arrastar as chinelas
não usar maquiagem
só as roupas que vovó já usava
sei que vou sentir mais frio
conforme vovó me dizia
mas vou estar confortável
num corpo frágil, pequeno
magro e dolorido
as lágrimas serão de sabedoria
os passos lentos de monja
os hábitos zen feito rotinas
das grandes árvores
e eu não terei medo da Morte.

mas sempre, para sempre
terei saudades de você,
minha Alma, minha Velha
Jota.

Saluba, mãe velha!
Salve, avó sagrada!