sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O museu das cabeças

sonhei com um museu
não o de grandes novidades
mas um museu de cabeças
muitas cabeças de todos os tipos
redondas quadradas entalhadas em madeira
umas outras em puro Carrara
algumas em gesso sem pintura
outras com máscaras
umas com pinturas...

sonhei com um grande museu
cheio de corredores e alas e labirintos
e escadas e salas e organizações
e parques e jardins e quartos
e banheiros e espelhos e cabeças.

sonhei com um museu de sorrisos
esquálidos e as cabeças falavam,
gritavam, gargalhavam, sussurravam,
discordavam, mordiam a si mesmas,
línguas esbaforidas, algumas pediam
água, outras diet coke, uma implorou
por chá das Índias, outras queriam um cigarro.

sonhei com um museu de cabeças
e enquanto perambulava
percebi que estava sozinha.
encontrei uma porta que dava
pra outra porta que dava
pra outra porta que dava
pra uma sala
vazia.

sonhei com um museu estranho
e as cabeças contavam histórias,
gritavam impropérios,
algumas discutiam leis rígidas,
outras falavam sobre minérios.

e eu, ali no meio, perdida
sem achar saída
desesperada estava
desesperada fiquei.

foi quando meu corpo
enrijecendo,
embranqueceu
e minhas pernas alvas como
a neve juntaram-se
e eu, de pavor
abri a boca
e querendo gritar
fiquei sem voz
e os braços uniram-se
ao corpo
e tudo branco
e tudo gesso

sobrou-me o grotesco:
eu era a única cabeça
muda.