sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Os anjos

A Valin

há alguns dias não saio de casa
nem penteio meus cabelos
só lavo, esfregando bem o couro cabeludo
então uma palha
há alguns dias não saio nem no quintal
confortável entre quatro pequenos cômodos
sou o hamster favorito de mamãe
há alguns dias não saio de casa
e com o ventiladorzinho desligado
bebo a água morna das conquistas futuras
tão adiadas
que desistiram.
lavei meus cabelos no tanque quebrado
com uma torneira defeituosa
e a água da cachoeira
não vinha
não vinha
não vinha... Só o silêncio
da floresta viva da parede
do vizinho ao lado.
implorei que chovesse
mas há alguns dias não saio de casa
e deus não me ouviu
eu rezei baixinho no altar esquecido
dos meus poucos dias
de vida.
lavei os cabelos nas lágrimas
dos meus pesadelos
passei a mortalha dos meus sonhos
tudo muito cheiroso, muito florido
há alguns dias
não saio de casa...
e tenho muitas desculpas
mil tarefas
como lavar meu cabelo por exemplo.

há dias não saio de casa.
há dias
em que parece que vou morrer
e sair de casa
não me parece bom.
há dias...
em que botar a cabeça pra fora da gaiola
parece a morte.
há dias... em que só quero
ficar aqui.
e fico.
digam ao povo que fico.
diga a mim mesma que fico.
diga.

Ninguém me disse que eu poderia sair:
há dias permaneço e, mesmo assim,
de mim
há dias que parti.