quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Eterna

Consigo te ver
aqui no meio da sala, de pé
me olhando
largada no chão, meio acordada
meio dormindo...
Quieta, no escuro, consigo ver
você
que brilha no meio do apagão da cidade
que canta no início do silêncio da madrugada
que não me deixa em paz.
Consigo te ver com todos os detalhes
mais frágeis
e as olheiras mais escuras
me dizem qualquer coisa
que não sei traduzir.
Consigo te ver desde o início
sem me enganar que você está aqui.
Sim, não me engano.
Consigo te ver porque
o delírio me mostra todos os detalhes
enormes detalhes
plausíveis detalhes
que a febre da saudade utiliza para me convencer de que tudo aqui é real e que não estou
doente, esperando o impossível.
Mas, com a porta trancada, posso me dar ao luxo de sim
Sim...
Conseguir ver você
Novamente e brando, como sempre
com a mesma voz de quando eu ouvia
suas músicas no celular
andando pela rua
e pensando se você seria feliz dentro de toda minha mediocridade intelectual.1
Consigo te ver, outra vez, hoje
mesmo que ontem
eu tenha me despedido
Será que algo seu ainda perdura?
As memórias são infalíveis
não existe máquina que as apague
E as minhas olheiras
cada vez mais escuras
somente me lembram
das tuas.

Eu me perdi nesse pensamento obscuro
uma lâmina de luz que passou pelos teus olhos
a luz da cozinha acesa
é a navalha na carne.
Perco todo tempo
minhas férias inteiras... cobertas de areia e vento
O tempo infinito de conseguir te ver.

Sim, e meu coração já cativo
não esquece tua sombra
quando o violão pranteia `
a noite
e, meus olhos correm pela orla
inteira e desconhecida...
Meu coração despedaçado...
te procura...
E não esqueço.

Existe alguma vida que me aguarde
daqui a pouco
quando o sol vier colorir a aurora
e tua sombra luminosa
deixar a sala?

Meu corpo estará aqui ainda
abandonado
...

Tua música jogada
no horizonte resplandecente
do amanhecer:
sou eterna chama
ardente
dentro dos mares que te cobrem
a insônia.

Sou eterno mar
em raro desespero...