terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Há dois mil anos...

para Emmanuel

lamento informar mas escrevi como se esquece e as palavras estão todas
misturadas
umas flutuam ao longo das linhas
 e as outras torturam minha mente
e estou surda dos seus gritos
eternamente inauditos

escrevi como quem esquece os mínimos detalhes
e nada desaparece
que não possa ouvir o grito
ou ser o som que assombra

de onde surgem as palavras que me assustam?
provavelmente os livros que li estavam todos errados
eu não tenho controle algum de absolutamente nada
e tudo que parece minimamente estranho
é uma fraca luz diantes dos meus olhos
pra abandonar essa escrita inútil

o amanhã virá
sem dúvidas coberto de razões infinitas
e eu não vou entender nada
de verdade
vou olhar e fingir compreensão
amor
e principalmente compreensão

eu já disse compreensão?

esqueci que a história é escrita pelos fortes
e que qualquer coisa que eu poderia fazer
ah, já estou velha e sem grana nenhuma
o que eles querem que eu venda dessa vez?
o que será que tá valendo?

tenho algumas ideias diante do absolutismo do destino
mas elas todas não me darão nem um sanduíche
nem um teto
nem um ventilador
as contas ainda terão que ser pagas
e todo mundo vai botar meu nome na lista
dos devedores.
Deus também.
Faltou pagar a penitência, sacou?

Eu escrevo porque me faltam alternativas
no momento
para pensar em algo mais interessante do que
me matar de arrancar essas palavras teimosas
da pele carcomida
elas alastraram pelas veias
e entopem tudo
um dia, o infarto virá
e quando meu coração explodir

o cachorro do vizinho virá lamber as palavras
que meu peito abortar.

desde ontem a cidade mudou...