quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Luzes dos postes

Disse: "Vou trazer tuas coisas de volta
deixar tua poeira despencar pela minha pele
quando estiver carregando junto o tapete
da sala."

Prometeu diante da tarde mais vermelha
que já tínhamos presenciado e eu
quieta
acompanhei os passos da promessa
até sumir no encanto do desamanhecer.

Deixando a noite cair sobre nossos ombros
o sol permitiu chamar seu canto
atrás do hirto prazer de sentir
a mão dele na minha.

Tudo parecia para sempre
até a risada de Monk
perdida em Nova Iorque.

Sim, aquela mesma cidade na qual ele estaria
na semana que vem
e eu
não sei nem onde fica
o quanto demora pra chegar lá
e tudo mais e tudo mais
que se gasta pra lá estar
é tão, tão, tão longe de tudo
o pouco que conheço 
é nadinha conhecido da multidão
de desconhecidos que navega pelo mundo.

A noite, anciã de todos, mão eterna que pesa
sobre nossos ombros cansados de Iorque...
Pesa aqui, meu amor, pesa tanto aqui
em Meriti quanto
pesa em Copacabana e Ipanema e no Leblon
florido e cheio, cansado mesmo
de tanto mar
tanto mar

sei quanto é preciso pra navegar?

A insônia mesmo calada
incomoda feito um linfoma esquecido
dentro da noite.
A noite muscular,,.
o sono é a flacidez do Tempo.

Onde está o tapete da árvore cristalina?
E eu mesma me escondi
rindo porque não tinha alternativa
rindo porque não tinha porque não rir
rindo porque o desespero é a última chance
rindo porque é a última dança
e se eu soubesse
que aquela noite
seria a última chance
dos meus olhos encontrarem os teus...
eu teria visto o mundo inteiro cair
e o Corcovado tartamudear meu nome
e os planetas gritarem nos meus seios
e o útero do universo
declamar o último verso de Baudelaire.

Onde escondi o tapete pra deitar
na sala da casa Santa?

Vem aqui, deita aqui, esquece o mundo.
Melancolia já caiu em nós.

E amém.