quarta-feira, 11 de maio de 2016

Banalidades

Para Dilma Rousseff

Eu sou a vigésima sexta na fila de espera.  Meu peito dói. Bem no meio. Uma porrada que tomei, do destino, bem no centro do plexo. Eu sou a vigésima sexta da fila de espera. Não pra eutanásia. Não pra me pesar na farmácia. Não pra pagar os impostos. Não. Quero desistir do atendimento. Tomar outro comprimido. Fumar outro cigarro. Ler outro Kafka espelhado nos olhos do Henrique. Eu devia ter feito outra coisa? Resistido mais. A culpa é um soco diário na minha cara logo de manhã cedo. Ela me despreza. Ele me despreza. Não são todos, nem tantos, ora. Mas são as bases. Por que inventaram família? Mais um soco na ponta da faca. Porrada nela antes que se enfie no meu coração. Mais um murro na parede que me sufoca. Mais uma violência antes da madrugada vir apagada e portátil.
Queria acordar amanhã com todos os pensamentos normais e corretos. Depois chegar em casa e dormir sem sonhos. Mas não vou nem dormir... As noites agora já não são de sono. De fúria e medo, me tranco na lamúria do banheiro escuro, me escondo no ralo, a guerra vem aí. E eu sou fraca. Não nasci pra soldado. Nem pra direito. Nem pra ser macho. Tenho olhos moles, mãos vazias, pés doloridos, costas tortas. Amo os homens. Mesmo os errados. Amo as mulheres. Somos companheiras de dores. Mulher é isso: doer. Estou quebrada. Já nasci quebrada. Vou morrer quebrada.
Eu sou a vigésima segunda na fila de espera. Meus olhos observam os homens do alto. As fardas brilhantes me cegam. O sangue pisado na blusa branca. Uma vergonha estar sem sutiã. Quando acabar, não seremos mais. Uma vez, me contaram que. Já não tenho memória, os remédios, as porradas. Mãe, mãe... Papai... Nada de cartas. Fui Kafka. Sou outra. Recuperei a visão dos mundos. Dividi-me em quarenta. Tenho quarenta nomes. No centro do casulo, julgamentos periódicos. Uns estalos bem altos, meus joelhos tremem sozinhos. Os dentes batem uns nos outros, sem novidades.
Sou o vigésimo elemento na fila de espera. Hoje vão nos dar comida, disseram. Mas só depois do banho. Ah, então estamos indo pro banho. É. Só pode ser.
Eu sou a décima oitava no mundo de espera. Minha pele incrustada de sangue, terra e fel. Esfrego as unhas sujas no rosto. Na careca.. Os joelhos batem um no outro, pés frios. Mãos suadas. Um fedor terrível.
Décima sétima. Eu, número na pele. Não sei nome.
138246. 138247. 138248. 138249. 138250.

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