terça-feira, 10 de maio de 2016

Fortuna

Para Dilma Rousseff.

Enquanto a vida insiste, estou sentada sem ler nada. À vontade do que nunca estive, na rua, a caminhada é  obrigatória. Os joelhos doem mesmo quando a alma se contrai. Dura o plenilúnio da sinfonia. Joguei a loucura com perícia e abuso. Ilegal. Não sei do que falo. O enredo já não tem assunto. Todas as explicações. O deserto absurdo dos teus olhos verdes é a imagem fugidia da própria alma que ali se reflete, tímida. O que eu poderia fazer se teu corpo já não responde ao meu desatino?
Prosa cristalina e datada para fenecer. Palavras esgotadas fogem das livrarias. Bebo um expresso oriental de lágrimas vietnamitas. No Nepal estão as colunas que sustentam o nosso mundo interior. Os frascos dos alquimistas tinham perfumes e nada mais. O chumbo era o pensamento comedido dos ignorantes queimando seus ópios e as peles das mulheres na fogueira imunda das vaidades frustradas da incontinência dos acordos. Opinaria diante dos assassinatos se assim eu pudesse, mas fiquei entalada com a areia. Dentro do galpão, tinha um latão de lixo que me afogaram. Arrancaram minhas unhas. As promessas nunca existiram e o amor dói. Cada respiração, uma embolia. Cada olhar, uma porrada na cara. Odiar o querido próximo e querer enfiar uma faca na garganta do colega de cela. Onde estão meus dedos? Estou surda do ouvido esquerdo. Tirânica não reparei na nota errada da sinfonia que tocaram na madrugada em que n]ao nos permitiram dormir. O horror nos espiava pelos olhos dos ratos. Que podia fazer a não ser mordê-los, mordendo a mim mesma, dentro de cada um, o sangue, os ossinhos, o gosto amargo. Julguei-me sábia.
Os textos que já nascem mortos porque não tenho onde anotá-los. O papel é a pele e a caneta está no olho ardente do dragão que nos aguarda. Não há mais grito. O silêncio nos precede em qualquer comentário. Somos guardiões das dores do silêncio e tudo que se fez foi justiça e liberdade. Onde estão os meus dias contados e já não posso caminhar pra fora de lugar nenhum. Acordo sem saber meu nome.
Onde? Ouço a música que irá me torturar por milhares de noites. Sem sirenes. Somente violinos.
O silêncio é mais desejado do que a água porque bebo lágrimas. Meus cabelos arrancados. Meus seios mordidos. Já não encontro paredes nos sonhos que durmo, as paredes aberta e brandas, brancamente espelhadas no meu senso. No meio da palestra.
Parágrafos sem fim em combates finais, sempre se despedindo. O que é dizer se não há nada a ser dito? O repetido é exaustivamente pregado em nossos espíritos. E clamamos pela madrugada pálida.
Não tem maio que suporte. Os textos em progressão. Sem leitores todos os poetas. Sem escritores todos os livros. É uma máquina encaixando palavras a esmo. Verdadeiramente fiel aos princípios do esmo. O grito reverbera na sede. A garganta cortada sangra pouco ainda enquanto não saí do pesadelo.
Ave Maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco? Bendita sós vós entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre? Jesus.
Não repito. A santa não viria aqui testemunhar nossa desgraça causada por nós mesmos. E a conclusão é essa: Somos perdedores desde o Éden. Não seria agora que...
Não sei porque a pele acaba. A unha quebrou no meio da escrita. O sangue alimenta os ratos. Não existe pânico.
Última frase:
O ser acostuma-se. Nunca está, sempre é.

Mariana Belize

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