terça-feira, 10 de maio de 2016

Fuga

Para Dilma Rousseff


A vontade de caminhar dá sempre nas horas erradas. Não sei andar de bicicleta, tenho que ter um tênis que preste. Posso escrever errado pra ti. Duas mulheres. Eu lembro de quando fiz um suco de laranja e você bebeu num copo de requeijão sem problema nenhum. Queria falar com alguém que não estivesse dentro do contexto louco. Queria sair de lá. Eu disse que não sabia o que fazer da vida. Você disse que também não. Rimos.

Minha escolha foi sempre ficar do teu lado. Não estamos nas mãos da sorte nem nas unhas de Clarice Lispector. Fui Macabéa, sabia? Perdi meus medos de palco, mas ainda morro de medo de ir pra cama com qualquer um. Eu não descobri nada disso, não sei do que se trata. A vida toda me envolvendo e largando todos pelo caminho. Ainda não sei o que pensar sobre a vida e não vejo nada de interessante. Você foi embora, não sorrio mais pras fotografias.

O desejo de largar tudo e morar na rua sempre existiu. A literatura da miséria é uma mentira deslavada de alguns caras que botam a culpa da merda toda na vodka e nos cigarros. Eu poderia citar nomes, mas isso não mudaria nada. Definitivamente, toda novela mente. Talvez seja isso o tão irritante: todos mentem, mas não assumem o pacto que fizeram desde o início da vida.

Tenho que pintar as unhas. Fazer meu cabelo mais aceitável. Cortar os calos dos pés. Lavar os tênis. Há tempos não converso com alguém que me ouça. Há tempo também não ouço ninguém. Isso não é poesia. Não sei onde ela foi parar, mas parece que tudo que fiz... Tudo à toa. Mesmo as madrugadas acordada, com fome. Agora durmo num edredon verde empoeirado, num canto da sala. Sem tirar nenhum móvel do lugar, por favor. Sem se mexer muito. Os ombros acordam podres de virar e revirar. Uma noite dessas, o chão estava cheio de formigas. No outro, foi um rato que entrou. As janelas e portas fechadas. As pessoas falando, a televisão ligada até quatro da manhã. Eu não sei por onde sair. Não durmo direito há quatro meses. Mas tenho que ser grata. Tenho que ser simpática, boa filha, feliz e satisfeita. Tenho que... tenho que... A culpa me cobra ceitil por ceitil do que nunca faço. Aquele que segue o próprio desejo sempre será sacrificado. Sua tristeza não é maior do que de ninguém, você é um grão de areia, não vale nada, não sabe de nada, não pode nada, não quer nada. Não é, nem foi, nunca será. Nunca será.

Repito mais um dia sentada, espero a morte que não virá.

Nenhum comentário: