quinta-feira, 5 de maio de 2016

Junho

Só penso em te escrever. Transformar, depois, meu verbo em carne e te devorar. Pedaço por pedaço, eu dividiria teu qorpo santo. Degustaria com mel de uruçu. Comeria com sal e açúcar.
Lembro de que, mês que vem, vomitarei você. Percebo que, sim, já te mastiguei. Já te engoli. E, parado no meu estômago, apodrecemos por inteiro.
Enquanto estudo música, você saúda as platéias divinas e invisíveis do meu Lied. Já não durmo, entregando todas as minhas noites à madrugada como sacrifício pra esquecer-te de vez. A manhã tudo cala. E eu me enfio nela, cheia de esperanças, caminhando pelas estradas sem placas.
Escrevo a você, ainda hoje, depois de tantos anos. Pra mim, parecem milhares. E devem ser.
Um dos pilares da minha existência é o não-ouvir as tuas músicas. Cada uma delas me destruiu em épocas diferentes. Hoje me mantenho viva ao não te escutar em coisa alguma. Nem vídeo, nem foto. Nem música, nem letra.
Sou presa das lembranças que me escravizam na tua arte. Penso na minha missão de te esquecer para sempre. Começo no mês que vem, vomitando o que sei por intermédio da escrita fajuta e fugitiva. Sou Albertine. Mariana. Gisele e a roda de fiar. Um pedaço simples de Penélope. Alguma sensação de Diana caçadora quando olho a lua. E Iansã menina, de espada em punho. Mas também danço com Oxum, no orvalho da manhã macia. Aceito a velha Nanã dentro de mim... Sábia. Somos todas uma. Mariana consciente de vomitar o que não é bom porque sabe. Sabe que tudo que entala, mata.  Meu amor mudo. Escarnecido até por mim mesma, uma vergonha. A culpa é das estrelas, dizem. Meu amor perdido nas cadeiras do Teatro Municipal. Assistindo ópera. Solitário e valente Dom Quixote. Ele ainda ouve algo. Ouve mais do que Beethoven surdo. Só não me conhece. Mas eu sei que não precisava falar tudo. Ele sabia que. Eu, muda desde 2012. Flutuando pelo Rio de Janeiro inteiro, caçando cada passo dele... Até que.
Até que, Govinda veio em sonho e desligou todos os sons da minha vida, inclusive tuas músicas. Permitiu que eu não fosse mais uma fã e voltasse a ser humana em silêncio. Mariana calada de tudo, ouvindo o suposto Nada. Minha alma fora do desespero de querer, arredondou-se toda...Minha pele azul sobreviveu aos milênios... multiplicou-se Govinda em mil universos enquanto eu observava, apaixonada, as mãos de Sidharta.

Não sei como, nem onde, mas a Lótus que nasceu em mim me deseja. Sou dela, ela é minha. Sob a sombra do silêncio sagrado, escondo-me da sinfonia inacabada do amor e caminho na corda bamba do meio.

"Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada..."

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