quarta-feira, 4 de maio de 2016

Lembra de mim

Você roubou meu sono e deixou os clichês se acumularem aqui nesse quarto gelado. Onde você está? Não sei se estou sentindo algo, a literatura me abandonou. Uma agonia que irrita, uma febre que brilha. Talvez eu queira outra briga inútil, algo de você sentado naquela cadeira com uma faca na mão. Algo que me faça sentir a vivacidade da tragédia horrível dos dias imensos. Você traiu ela. Algo que me ressuscite da gastura desses dias e que me ajude a ressurgir das cinzas das minhas podres palavras. Eu sei que foi bom trair ela. Estou pronta, dentro de mim, as malas feitas, tudo pronto, sou desse jeito e vou falar a verdade outra vez. Você gostou da última vez que eu falei do meu coração naquela mesa. Quero te sacudir, empurrar seu corpo magro por aquelas rampas e, se eu fosse você, olhava pra trás. É. Quero que você me odeie como sempre e que me ame como nunca imaginou que fosse possível. E que me beije na frente de todos na reunião proibida para menores de quatorze anos sem doutorado. E me jogue no chão e me ame. Quero o deserto da tua pele e o sol queimando meu rosto vazio, mas cheio de franquezas da infância. O mundo que se acabe, eu construo tudo em três dias. Sou artista e minto para te agradar. Que tudo é teu e te amo mais do que tudo. Uno as palavras querendo teu corpo no texto. Teu pranto aguerrido aos sermões da manhã. Teu nome em tudo. Preciso ir com calma, já vai amanhecer. Preciso ir com calma, senão o lençol rasga e não cumpre seu destino.

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