quinta-feira, 26 de maio de 2016

Mulheres

Para Isadora e todas

Quando as camisas de força voltarem, os nós das forcas apertarem e as fogueiras reacenderem, eu não sei onde estarei. No passado, costurei os destinos em desatinos voláteis nos caldeirões e sabia de cor curar todas as dores das mulheres. As árvores e arbustos me contavam seus mistérios de morte e vida, cura e poder. Nosso sangue foi um só durante milênios. Eu sei. As cordas vieram, cozidas em água fervente, traçando nossas inocências e cobrindo nossos corações de crueldade e perfídia. Fomos as noivas sem véu. Ísis descortinadas, mulheres em desespero, desprezadas somos até hoje. Objetos de decoração e uso coletivo. As mesmas árvores que me ensinaram a curar foram usadas para queimar nossos corpos, porém nossos espíritos errantes ainda vagam pela terra, buscando a justiça. O Deus dos homens não olhou para nós. Virou seus olhos e cobriu-se de nuvens, protegendo seu amor pelo homem com a culpa imputada às mulheres. Todas nós, deusas, tivemos os peitos cortados.

Apunhaladas pelo cotidiano feroz, somos guerreiras quietas, tramando contra nós mesmas no escuro desatino do próprio ódio. Ensinadas a sentar, aceitar e calar. Deitamos em colos de assassinos, amamos os sequestradores e aprendemos a odiar nossas mães, sugando de seu peito o fel de nossa desgraça coletiva. Somos mulheres de areia. Mulheres de água. Mulheres de pedra. Mulheres de versos. Construídas como enfeite, nós sorrimos e acenamos. Choramos por nossos capturadores. Clamamos pelos que colocamos no mundo. E a submissão nos açoita. Nossas vozes não ecoam. O silêncio é nossa cruz desde o início dos tempos.

Discordo do branco que cobre os altares dos templos que os homens construíram. Desde sempre sou Yin. A melancolia, a lua, meu sangue é minha dor cotidiana. Meu sangue nunca celebrado, as lágrimas da Terra. O útero em combustão. Nossos pulsos.

Continuamos em silêncio. Temam todos, quando decidirmos dar o grito final.

Mariana Belize