segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ruptura

Ao monge copista.

À noite, dois pensamentos: o dormir e o sonhar. Esbarro no invisível fio dos enredos inconscientes, traçando caminhos desconhecidos ao despertar. E, quando acordo, há conforto no primeiro pensamento da manhã nublada. O sonhar é. O acordar não.
Existe um milésimo de segundo, o mais sagrado de todos os dias, que é aquele no qual não sei quem sou. Um medo confortável de ir no espelho e ver outro rosto. Microrreencarnações não programadas em sonhos que me vejo em outros corpos.
Observo o passar das máscaras pelo rosto sem saber o que há embaixo. Também não sei o eu que olha. Longe de tudo, flutuo meio pálida e nauseada das alturas.

No palco, o coração é batalha acirrada. Sombras caladas, capas e máscaras coloridas me cercam exigindo respostas que não sei. Julgam a indeterminação como desprezo. Lugar sagrado que não permite pranto, vejo Édipo em desgraça, Medéia prestes a tomar sua carruagem de fogo e Andrômeda grita.
Não me permito parar. As cortinas se fecham e sou devorada pelas Bacantes. Eu, cheia de razão.

Subo montanhas carregando serpentes enroladas nos calcanhares. Não há pedra que role sobre minha cabeça. Controle. Disciplina. Céu aberto e terra afogada em desejo.

Os anjos descem. Encaramo-nos.
O vento muda.
O sol desce.
A lua vem.

É noite.

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