sexta-feira, 3 de junho de 2016

A noite esverdeada

Para G.

Olhou pra trás a primeira vez. Já não queria dizer adeus.
Viu a garota decidida, sacolas pesadas nos braços.
Olhou pra trás novamente. Ela ia junto, então?
Era das que cumpriam promessas? O ônibus era o mesmo.
Hora avançada, olhou pra trás. Convites voavam, ela disse
não.
Definitiva, cumpria a palavra. Ia.
Olhou pra frente, dessa vez, estranhamente animada.
Nunca mais queria dizer adeus. Não diria
pelo menos, não naquela hora estranha.
Entraram no ônibus gelado.
A outra era o cansaço. A noite de olhos brilhantes
olhava pela janela. Lua olhando lua. Escorpião ferindo
calcanhar alheio. Já era.
O celular atrapalha o desejo de diálogo de uma.
O tempo se arrasta nas palavras da máquina:
árvores, asfalto, poeira, noite, frio, postes.
A mão que desliga logo procura os dedos da outra.
Susto das duas? Desespero de uma. Sem saber.
Não se perdem mais. A lua ajuda?
Para uma, o absurdo rugido que a noite reserva. Alguma surpresa?
Para outra, o retorno do desejo. Uma volta para casa:
de si mesma.

Mariana Belize