terça-feira, 28 de junho de 2016

Lua

Sentei na beira do rio pra costurar as beiradas do coração esfarrapado. Só tenho essa desgraça. Enquanto o peito vazio estancava o vento nas entranhas, as cores do dia iam anoitecendo aos poucos. De onde veio a lua, num sei. Só sei que quando chegou, ribombou no céu feito um trovão no dia errado. Falou comigo umas três palavras. Levantei as vistas, ela vivo rubi encarou meu castanho escuro de lama de fundo de rio. A guia de aço arrebentou, escorrendo pelo peito adentro, feito lâmina fria. Doente, segurei o pranto. Profetizei três destinos: o meu, o da lua e o do rio. A vaca veio lamber a água branca. Se eu segurar o pranto três vezes, morro. Sem coração na caixa, não tem corpo que guente. Costurei outro pedacinho pro sangue não fugir. Voltei atrás, perdi a agulha no rio. A linha também escorreu pra dentro da alma e esqueceu pra que servia. Deslizei também e percebi que, desde sempre, minha moradia, o rio, tinha anoitecido de vez. Só via névoa, vagalume, lobisomem auivando.

Escorri de dentro de mim e com a alma tinindo, me encontrei com o rio. Fiquei lisa, planando n'água. Fiscal de lua, sorri pro corpo encostado na rocha. Já não era meu.