quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Eu vi Sócrates no Japeri

resposta à saga do grande líder

um prato vazio ao lado da cama fria
a garrafa de água morna sob a cortina fechada
um cenário tranquilo de tanta fúria
contida nas paredes do meu peito

o som que escapava sem mérito
nem talento
batia firme contra a amargura
e toda minha doença segue sem cura
e todo silêncio feito é tipo uma desdita
em que meu destino 
a que será que se destina?

desde quando era pequeno
o vencedor de toda turma
era outra menina bonita
ou o moleque branquelo
mas eu já nasci malandro velho.

quando cresci nada de bandeira
nem o hino aprendi
pra não ter que me humilhar
aquela bandeira verde e amarela
sempre, pra mim, foi uma flâmula de sangue
suor e pó

as lágrimas que minha mãe chorava
depois que a pm invadia
eu contava toda noite uma a uma
e guardava a vingança
como quem engole choro
e mastiga pedra.

todo tiro que ouvi
virou canção de ninar
mas esse coração de ferro
água podre e dor
não cansa de batucar.

nem toda beleza cura
nem todo amor é solitário
nem toda lua é balsâmica
mas todo mito é morto
e eu nasci pra ficar vivo.

todas as cores que esqueci
o olho em preto e branco
o vermelho que escorria toda noite
do sussurro horripilante
do meu peito:
outra dor.

toda madrugada a mesma
oração
pro meu santo eu fazia
que me protegesse, pelo menos
e que me guiasse até o pão

o santo ouvia calado
enaltecia a paciência
e do mesmo jeito que eu
orava
eu dormia.

dentro de mim nenhum alento
quase toda vida essa desdita
do que posso reclamar, mesmo assim
irmão
se hoje acordei foi pra tirar tua razão

de que preto e pobre é sem talento
de que preto é preguiçoso
e só é pobre aquele
que não acorda cedo.

irmão, a nossa luta é sobreviver
aqui e agora
e desde ontem, eu vi
a cidade mudou.

eu li um livro entre Japeri e Deodoro
e quero ver quem vai me dizer que não
posso filosofar no Jacarezinho sim
se eu quiser
e, se na escola, sempre me negam
a história e a língua
portuguesa

é na rua que a filosofia me abraça:
e eu, com todo fogo do peito
posso cantar em rima o que me aflige
e, à minha volta, desestabilizar toda desgraça.

é a Arte, irmão:
minha irmã, minha mãe e meus irmãos
é a Arte
que manobra o trem no qual me
equilibro pra anotar
mais um verso 
é a Arte, minha manopla

a Arte, irmão, ela é que me ama.
E eu

eu nasci malandro velho.

Mariana Belize

Nenhum comentário: