quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Diário 1

"Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. 
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos."

C.D.A.


Hoje, amor, estão vendo aquele filme que você gosta. O "Beleza Americana". Você nem lembra quando falou dele pra mim, mas tenho certeza de que você achava que eu era aquela menina loira... Na virgindade e na covardia. Por que eu não iria até o fim nos meus anseios, né? Não mesmo.

"Teu ombros suportam o mundo"

Gosto de quando o protagonista morre e vejo a sua cara no lugar da dele. É bom, sabe? 
Dá uma leveza...
Ainda não consegui te sequestrar... acho que você não cabe no porta-malas... sei lá, você ia ficar se debatendo. Ia ser chato ter que te surrar pra enfiar no banco de trás. Ainda tem os engarrafamentos... e a despesa com comida. E minha preguiça de cozinhar pra você, banhar você, trocar de roupa...

"Tempo em que não se diz mais: meu amor."

Bom, às vezes eu penso em arrumar o cubículo lá fora e te deixar lá uns três meses mofando.
Em outras penso como você ficaria bonito pendurado num poço de cabeça pra baixo. Eu gritaria seu nome e ele ecoaria...
Mas eu amo. É, amo cheia de ódio. Bem ódio mesmo. Daquele bem brilhante, genial e bonito que só eu tenho. E que arrancaria todos os seus dentes um por um... Com muito amor.
O ódio sempre escorre pelos corredores dos meus sonhos quando esbarro numa porta daquelas com retângulos de vidro... e seu perfume sai de lá, volátil feito as memórias.

"Alguns, achando bárbaro o espetáculo, 
prefeririam (os delicados) morrer."

Eu não sou loira.
Mas você queria que eu fosse alguma coisa diferente.
Tenho medo de aceitar a ideia de que você foi o único que me aceitava como eu era.
Aceitação é difícil entre covardes. Você é um menino ainda. E eu falo com você por causa disso.
É claro que você nunca ouve. Prefere ver o Roland Garros nos meus sonhos.

Mas você pequeno era mais fácil de cuidar. Agora... eu já não sei. Só amarrado, amordaçado, quebrado, surrado. Belíssimo! Sem óculos, rasgado, diplomas flutuando... sem memória. Chutado.
As feridas abertas. Algumas outras costuradas porcamente. Homem inflamado. Homem cego de um olho. Olho guardado num frasco. Homem cobaia de laboratório. Eu ainda bato na mesa quando falo.

Você me acha burra.
Não, não é uma pergunta. Eu sei.

"A vida apenas, sem mistificação."

Mariana Belize

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