segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Existir como quem se arrisca

Não sei que quero mais procurar o verso perfeito, uma rima brilhante que a todos iluminaria e tiraria desse tédio. Não sei se o que procuro, já achei ou nunca vou sentir. Meu corpo me diz as verdades em linguagens ininteligíveis, indecifrável coração, tirano obtuso. Bato a cabeça tentando entender tudo e não morrerei antes de aprender a desaprender de quem sou ou estou. Nada é essencial, somente os banhos de chuva trazem as verdades benditas do céus. As nuvens beijaram os ossos de Goethe antes que eu pudesse vê-los. Ele morrerá novamente. Eu também, mas posso ainda identificar o jasmim lá longe. Sem vírgulas, estes são os meus textos mais sensatos. Não sei parar de escrever simplesmente. Não consigo me trair a esse ponto de pensar que é loucura sentar e tratar de escrever, repetir, desdizer e sim, principalmente mentir. Mas fico calada quando a chuva cai porque o encanto vem do silêncio que faço e não da palavra que escrevo, não do dedo que me aponta, não do homem que me julga impunemente. Os textos nos quais não respiro, a língua portuguesa se apresenta com alguma verdade inquestionável que não conheço e não consigo explicar pra alguém. Todos entendemos tudo errado. Os ossos de Goethe são os poemas que foram pro lixo. E do mesmo Goethe quem veio depois não fui eu, mas outro alguém e começaram a usa-lo como bandeira de qualquer coisa que ele nunca concordou. Eu não sou bandeira. Eu não sou Bandeira. Nem ele é ele ao qual cultuam. As pessoas cagam, copiam os textos, sem entendê-los, não querem trabalho de ler e ler e ler outra vez. Outras vezes em que me calei foi porque o silêncio que me invade é inexplicável e saiu como a lágrima que o pássaro me deu de presente. Escreva sóbrio, revise sóbrio. Eu estou sóbria do alcool, mas embrigada de Chopin que é uma das poucas coisas que ainda me move a existência. É ouvir e calar diante do homem e sua arte, Deste homem, seus dedos, seus olhos, sua arte, O piano ficaria calado nas minhas mãos, mas nas de Chopin o piano sei lá. Goza.

Escrevo porque não tenho psicanalista.
Escrevo pra não morrer em dívida comigo mesma.
Escrevo porque estou só. E não tenho dúvidas:
encaro a verdade de que morrerei só.
E isso é beleza! isso é fúria! isso é tempestade!

Isso é Amor.

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