domingo, 30 de abril de 2017

Papel de parede

guardo a mão dele no papel que enche de cor a tela do computador
as unhas rasgam o espírito da internet
e os dedos, ainda que parados, religam minha sombra às músicas ininteligíveis
sem querer, escutei o tirano qualquer coisa
e dentro do escrutínio da tua letra eu não sobressaí
porque dentro do sicômoro eu estava e lá me perdi
diante de ti, ninguém
diante de mim, tudo.

guardo a mão que me assombra
escondida na madrugada
um medo

a porta que abre e é o vento
na sala de estar, uma televisão ligada
pra fingir que os espíritos não tiram tudo do lugar
onde ela se sentara um dia
é onde agora estão os piquetes.

guardo tua mão avulsa do corpo porque não aguento teus olhos escuros
mas amo a música que teus dedos fazem
mas amo o violão que me levanta
mas amo o ritmo, cor e festa do teu sorriso
ainda que não o veja

guardo e aguardo um dia qualquer
em que eu esteja pela Urca
e te veja, vestido de música, a descer o morro
a pé.

Mariana Belize

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