sábado, 13 de maio de 2017

Coleridge

tenho alguma estrela roubada ainda
um verso na manga
um olho na magia
um encanto, feitiço antigo de amor
que irei coser com ódio, veneno de cobra
e seu fio de cabelo branco
que roubei

beijo o verso do seu papel escrito
assinatura antiga tecida com garbo
e as mãos entre substâncias indevidas
atadas de cordas invisíveis
mancham ainda os livros com a cocaína

eu vejo você escondido o tempo inteiro
eu vejo seus olhos perturbados na minha bola de cristal
e sei por onde seu caminho se justifica
procurando mulheres em madrugadas vazias
para aquecer a vida perdida
que o vinho tinto derramou-se por cima

beijo o seu dilema por inteiro
do início ao fim conheço cada vilania
mas insisto em permanecer trancada
na prosa e no absinto
esquecendo a poesia e o amor obscuro
que nos unia

vejo o escorpião albino, a violência, seu jesus cristo
e a branca e virgem maria dos anjos
permaneço calada observando as linhas brancas irem sumindo
enquanto sua oração se torna mais cálida
minha bola de cristal, Álvaro, que aprendi a ler em Andaluzia
traz os mistérios que, em versos, descrevo
mas como profecia
não poesia.

meu tempo de poeta morreu
e foi enterrado com os restos da tua inocência.
pobre diabo!
mal sabe que a criança interior está morta
enquanto caminha pelos corredores dessa catedral obtusa
como um cadáver desterrado

um cálice bento, meu querido
nem alguma hóstia sagrada
nada nos motiva
nada, nem as velas votivas, nos acalma
nada, nem as Vésperas, nos inspiram

nem esse clamor de anjos que ouço
e o pranto imaculado de sua velha mãe
morena como cigana, mas perdida
santa antiga da família
cozinhando o pai feito carcaça
sóbria e lúcida
família tenebris.

Álvaro, volte-se para mim
largue essa arma sem gatilho
volte-se para mim
e o feitiço estará completo.

Duas palavras:
escorpião escarlate.
E o que está feito,
está feito.

Mariana Belize

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