sábado, 13 de maio de 2017

Poema em linha oblíqua

Sempre conheço gente que já levou umas mil porradas
Nenhum dos meus conhecidos foram campões de qualquer coisa

E eu, tantas vezes lúcida, tantas vezes histérica, tantas vezes hostil
Eu tantas vezes uma qualquer coisa sem nome nesse mundo
Indesculpavelmente higiênica mas coberta de transtornos-obsessivos-compulsivos
Eu, que tantas vezes lavei os cabelos mais do que devia
                                                deixando o couro cabeludo em ardências e sangres
Eu, que tantas vezes tenho sido um pesadelo para mim mesma
                                                 mesmo usando os perfumes franceses mais franceses que os franceses
Que tenho passado por todos os lugares e jamais tropeçado
Que tenho sido arrogante, delicada, maldosa e belíssima
Que, se sofro humilhações, jamais me mantenho calada
Que, justamente por nunca ter calado, perdi uma parte do cérebro
                                                 em procedimentos inenarráveis
E ora, ora... científicos!
Eu, que jamais fui cômica!
Eu, que jamais tenho notado qualquer homem abaixo de mim
                                                e, se existem, não me importam.
Eu, que tenho riquezas em contas na Suíça.
Eu, que, quando a hora do soco chegou
tenho segurado a mão do infeliz
e envergado o pulso dele para trás
a fim de quebrá-lo, espatifá-lo, humilhá-lo.
Eu, que não me importo com angústias. Nem minhas, nem alheias.
Eu verifico que jamais procurei pares nesse mundo.

Toda a gente que conheço e que fala comigo
Sempre sofre enxovalhos, sempre foram ridículos do início ao fim
Sempre foram mendigos - todos eles mendigos - na vida...

Quem me dera não ouvir de ninguém a voz
Sem confissões que não me interessam
Sem infâmias que não me perturbam
Que não me contassem nem insolências nem fúrias
Que silenciassem crimes e castigos

Sim, são todos marginais, já que falam, já que ouço
Quem há neste mundo que me confesse
um ato de delicadeza?
Ó mendigos, meus inimigos,

Que merda! Estou cansada desses marginais,
Onde é que há poetas nesse mundo?

Então somente eu sou tão límpida nesse i-mundo?

Poderão as mães não os terem amado
Podem ter sido órfãos - mas lúcidos? Nunca.
E eu, que tenho sido lúcida, sem ter sido órfã
Como posso negar meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido Medéia, literalmente Medéia
Medéia no sentido mais inocente e mais maligno da palavra.

Mariana Belize


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