segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sem título II

não
não quero falar aos seguros
não quero falar os onipotentes
aos que escovam os dentes
penteiam os cabelos
e lavam muito bem as partes pudentas

não
não quero me justificar aos de literatura francesa
aos que hablan espãnol
aos que speak english perfectly
muito menos aos filósofos neokantianos

não
não quero que me ouçam os homens
nem os infelizes
nem os meigos
nem os tímidos
nem os cansados

não
mas também não quero que morra
o verso livre
o poema clichê
o poeta babaca
a mulher cabisbaixa do metrô na Central

não
não sei pra onde isso me leva
não
não sei nem o que quero dizer
não
eu não sei se tem um deus a quem dizer
oi, deus
mas também não sei se tem uma mãe a dizer
oi, mãe

eu sei que tem o sol, tem a terra
o ar que respiro dificilmente
mas tento
entre os espirros

eu sei que tem um algo sem maiúsculas
eu sei

mas não
não é pros sinceros
mas não
não é pros famosos
não
não é pra todos

nós, as torres fulminadas
nós, os cachorros-loucos
nós, ainda Pivas nessa vida

eu sinto que nós é que carregamos essa
coisa
eu sinto é que somos jesus menino.

Mariana Belize

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