domingo, 18 de junho de 2017

Sem título

Estudei e li, o dia inteiro que deus deu, pra chegar à conclusão de que não escreverei mais. Sem voz, a poesia há de inchar, explodir e sumir depois. E â noite, eu não mais despertarei, entre ensandecida e espantada, com as revelações que me vierem seja lá de onde as coisas vem e me assombram.
Até falar de deus é difícil, as pessoas não aceitam nem mais o jesusinho, o menino de olhar doce que até minha vó cultuava às seis da noite, quando a virgem Maria vinha nos visitar pra tomar café e descansar dos pedidos das pessoas. Ela nunca reclamava, adorava o açúcar refinado que faz mal, dizia que no céu não tinha aquilo, nem pasta de amendoim. Minha avó ria e eu enchia colheres e colheres de açúcar pro copo de café da dona Maria ficar branco embaixo. Depois ela lambia a colher e saía, meio desolada mas sorria tão bonita a moça, pra voltar no dia seguinte. Minha vó dizia que ela visitava todo mundo que fosse católico, mas morava mesmo era com o ateu silencioso do final da rua. Não fazia barulho nenhum e ele é que tinha descoberto a história do açúcar, que eu e vovó adotamos, e guardamos segredo.
Mas o negócio mesmo, da poesia, eu larguei de mão. Égua de negócio cansativo.
Enfim, o fato é que vou escrever sobre os outros. Os corajosos que ainda não desistiram.

E eu? Eu quero é dormir.

Mariana Belize

Nenhum comentário: