terça-feira, 22 de agosto de 2017

Corretamente

te vejo procurar no passado
repassando
procurando algum erro
cometido

não há erro.

te vejo desesperado
despreparado
um sorriso
e uma lágrima
no mesmo gesto

não há erro.

te vejo correndo
nadando
voando
indo-e-voltando
sem consentimento
e sem glória

não há erro.

é isso.
o passado é o que foi
e não o que poderia ter sido.
toda palavra dita
foi
nada é maldito no passado
nenhum erro
cometido.

não há erro.
o que foi
é porque tinha que ter sido
daquele jeito
naquele momento
o último beijo
em segredo.

a noite não erra.
você não errou.
não há erro.

mas há mistério, detetive,
há segredo...
há a lua escura do meu olho esquerdo
há a sombra que me persegue
há o cruzeiro
e eu, a estrela maldita, vermelha em brasa,
repito
ao anoitecer o caminhar do sol
e me deito lânguida nas montanhas
repetindo
pra te consolar:
não há erro,
não há erro, meu amor.
não há erro.

Meu olho direito reflete a verdade do mundo
enquanto me escondo nas tintas escuras da noite
sem mistério, meu brilho não te alcança
e você corre em círculos
pra esquecer
que está vivo.

não há erro.
eu escrevo.
não há erro.
repito.


e estamos vazios
eu, você
e a lua.

é o fim
inenarrável.

é o fim correto.
longe, um do outro, não há mistério.
e a vida escorre pelos meus dedos.
sem lágrimas.

não há erro.
só o fim.

Mariana Belize

Nenhum comentário: