quarta-feira, 9 de agosto de 2017

De dentro do meu útero

O branco transformou o silêncio de Buda em fetiche. O branco transformou o mistério em fetiche. O branco fez de um profeta árabe um personagem no qual cabiam seus concílios. Mas tudo isso é muito maior que o branco. Por isso não morrerá.
A branca transformou a "amiga" negra em token, chama de "mana" a mesma mulher que, no fundo, odeia. A branca é frustrada. A branca transforma o próprio cabelo numa imitação, num fingimento de uma realeza que jamais possuiu ou possuirá. A branca OUSA dizer que Vênus veio antes de Oxum. Não só comete erros históricos graves, como zomba da antropologia que o próprio povo branco inventou... ciência de raiz eurocêntrica.
A branca não conhece sua própria raiz, repito, porque tem vergonha da mãe que a pariu, cuidou e alimentou. Da avó, das tias, das primas, das irmãs de sangue. Vergonha da própria família. Não a instituição, nãome venha com seu Foucalt, branca, comigo não cola.
Enquanto, branca mimada, você não souber reverenciar o útero verdadeiro do qual saiu, sem romantizar "Mãe Gaia", sem tokenizar uma crença que não te pertence, você continuará sendo apenas essa poeira perdida nessa egotrip infantil e narcisista.
Repito: Você não é uma deusa. É o resultado histórico e social dos privilégios que sua cor herdou em cima do sangue alheio, do suor alheio...
Não adianta fazer yoga e não lavar a própria louça.
Eu posso falar de igual pra igual com você, branca. Porque eu SOU branca, criada branca de útero branco.
E se estou um quase nada mais lúcida nesse caminho de vida, não devo um milésimo à arrogância branca que tanto cultivei e todo mundo sabe.
Todo mundo sabe porque eu mesma já falei mais de mil vezes a minha perspectiva cultural eurocêntrica de leituras e pensamentos.
Muito pelo contrário, devo sim ajoelhar e agradecer à misericórdia que Exu teve de mim. Oxalá, Ogun, Nanã, Oxum, Oyá... Eles sim. E, sobretudo, ELAS.
E aí sim, eu pude entender meu papel, meu lugar, minha responsabilidade.
Por isso tõ aqui, branca, embaixo desse eclipse olhando pra tua cara que, assumo, também é meu espelho.
Ao contrário de você, eu não tenho vergonha desse meu reflexo pálido. Não te chamo "mana", nem "miga", nem "flor, nem "deusa".
Te chamo de Eu. E de Tu, meu outro igual e diferente.
Nós, o padrão, a branquitude, a palidez.
E é de dentro desta escuridão de eclipse que não temo, de dentro deste temor que não tremo, de dentro desta sabedoria que me deram, de dentro deste útero que fisicamente me pariu. Dentro deste Escorpião vermelho que nos observa da Lua.
De dentro dessa meia-noite, de dentro do meu Orí é que parte, branca, não um pedido. Mas uma ordem:
-Cala-te. Agora e para sempre.

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