sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Mulher do deserto

Eu não ia falar nada, mas
a verdade é que sonhei
sonhei que as igrejas todas eram pequenos cassinos.
Zarvos, não avisaram pra eles que a vida já é um jogo?
Willer, não avisaram que a banca sempre ganha?
Piva, meu deus, por que não dizem nada?
Eu fico esperando os homens se ´posicionarem.
Mas eles não falam nada.
Frida, pra mim, você não é uma bolsa.
A revolução não será televisionada.
E tudo virou slogan, meu amor.
Onde estamos só tem esterco e um rio de alumínio.
Eu vejo o fim do mundo por um buraco
na parede da sala.
As janelas estão fechadas.
Torço por aquele cara, todo errado.
Um dia, São João da Cruz vai aparecer na cama dele
vai gritar: Noctívago, desperta. Lázaro, desperta.
Teresa te aguarda
mas poderia ser Madalena apócrifa
as heresias não esperam.
Eu não ia falar nada.
Mas ele já se mantém em silêncio por nós todos
né, Deus.
Então porquê eu ficaria mais calada do que ontem
Desde ontem a cidade mudou
Não roubo versos
nem margarinas.
Nem o amor.
Sou mulher, é o que me resta.
Assumo estes seios que a terra há de comer.
Meu olho em transe não adivinha nada
Eu vejo em espelho
Hoje entendo
É, acabou o vinho
tiraram de nós o pão.
Mas não vou esconder mais meus versos
Foda-se o mundo, foda-se se são realmente ruins
Vou continuar escrevendo.
Paulo, Paulo,
enquanto ficava calada era teu eco
Quando falo por mim
sou Hagia Sophia
e uma capela de ossos.
Prefiro.

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