terça-feira, 7 de novembro de 2017

Água fervida

"nada mais vai me ferir
é que eu já me acostumei
com a estrada errada que eu segui
com a minha própria lei"

Fabriquei em mim uma ferida
que mantenho aberta por vaidade
não tenho medo que me enfraqueça
ou me engula,
de verdade.
A pele é macia, o osso duro
o sangue cor de rosa por causa da anemia
também é ralo quando escorre
fácil de limpar e limpar e limpar
e é um rio que escorre do meu peito
um rio de delírios, imagens, rostos e deformações de teorias aparentemente
bem explicadas cientificamente
mas eu continuo sendo a minha ferida
irmanada com ela desde o princípio ativo do mundo
a ferida uma boca aberta aguardando a morte
a ferida uma fome grande
a ferida do mundo
sou eu

a ferida minha ferida
o mundo
e eu

o coração é grande e onde não teve martírio
nem crucificção
nem sacrofício
continua sendo meu
território vasto inafiançável
não tenho aquele medo
não ouvi as histórias que contaram
nem me retirei quando mandaram
nem dormi quando deram
o chá

eu alucinei sozinha nos campos
com o pólen
e disseram que era rinite
mas eu vi dionísio e as bacantes
eu arranquei a cabeça do homem pequeno que sombreou o sol

e não era nada
um espantalho rindo.
Apresentei ao rei
a cidade continuo
caçaram as barbas e os rios
encheram-se de corpos de monstros

mas o filho tinha morrido

eu alucinei sozinha
mesmo com os antialérgicos em dia

mas era só uma tevê ligada

no meio da floresta bárbara.

Mariana Belize
olhodebelize.wordpress.com
fb.com/olhodebelize

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